10.1.12



O caminho para o mundo da arte | Pintomeira


Pintomeira
Nascido em Deucriste, concelho de Viana do Castelo. Uma pequena aldeia construída em anfiteatro natural, estendendo-se  desde o vale das suas veigas e vinhedos até à meia encosta  do Monte Crasto, de onde contempla o derradeiro troço do rio Lima e a sua foz, em Viana. As minhas origens provêm, por um lado, de proprietários rurais relativamente abastados, e por outro, de uma fidalguia, já então, em franca decadência.
Na escola primária, interrogava-me por que razão a minha professora, de nome Belizanda, me pedia, sempre a mim, para desenhar no quadro preto, a igreja da minha aldeia. Tenho, também, na memória o tempo que ocupava a tentar desenhar, com os chamados lápis de pau, os retratos das minhas irmãs, e o fascínio e excitação que senti quando recebi a primeira caixa com lápis de cor, imaginando os desenhos que poderia fazer com tudo aquilo. Teria, então, oito, nove anos.
Capela na casa de família | Deucriste

Os meus pais, uma vez feita a instrução primária, já tinham, pressentia eu, pensado o meu destino. Seria o Seminário e o sacerdócio. Sendo eles profundamente religiosos praticantes do catolicismo, e como existe uma capela na minha casa de família, penso que gostariam de ver, no futuro, o filho padre a celebrar missa, intra-muros.
Assim aconteceu. Em Outubro de 1957, ainda criança, entro no Seminário Menor de Braga. Pela primeira vez, à noite, encontro-me a dormir num lugar estranho e, também pela primeira vez, encontro-me sem a protecção dos meus pais. Aquela inquietante estranheza inicial transformou-se, com o passar do tempo, numa convivência salutar e amical entre os restantes colegas. Conduzidos por regras austeras, muito próprias de um regime de internato numa Instituição Católica, a oração e o estudo preenchiam a maior parte do tempo, o que acabaria por inculcar em mim, e para a minha vida, o método e a disciplina mental. Mas, uma vez que a vocação para o sacerdócio não vivia dentro de mim, e sabendo da existência de um outro mundo lá fora, a permanência no Seminário não iria ser  longa. A rebeldia, o inconformismo e a ânsia de plena liberdade, atributos  que irão  caracterizar toda a minha vida, fizeram com que, no primeiro período do quinto ano, em Dezembro de 1961, eu tomasse a minha primeira grande decisão: abandonar o Seminário. Apesar dos conselhos insistentes do Reitor para que reconsiderasse essa minha vontade, dizendo-me que a vocação iria voltar ainda mais forte, a minha determinação estava tomada e era irreversível.
Seminário Maior | Braga

Juntei os poucos haveres na minha pequena mala, atravessei a enorme porta do Seminário Maior e, de repente, encontrava-me a descer, sozinho, a rua de Santa Margarida. Apanhei a camioneta de carreira de regresso a casa, em Deucriste. Durante a viagem, senti algo tão agradável e tão excitante, a que hoje chamo liberdade, que não consegui sequer imaginar o enorme desgosto que iria dar aos meus pais e o consequente castigo que me iria ser imposto. E assim aconteceu: o desgosto e o castigo. No entanto, passadas algumas semanas, uma carta, enviada pelo Reitor do Seminário, transformou-se num bálsamo para o desgosto e na revogação do meu castigo. A carta informava o meu pai que eu, não tendo vocação para o sacerdócio, deveria continuar os estudos. Passados dois meses, tudo se recompôs: iria prosseguir os estudos no Colégio do Minho e, depois, no Liceu de Santa Maria Maior, em Viana.
Liceu de Santa Maria Maior | Viana
As normas e as regras incutidas
e trazidas do Seminário permitiram uma passagem pelo Colégio, calma e sem agitações. No Liceu, tudo mudou. As animadas tertúlias nocturnas sobre cinema, teatro e literatura com o António Sales, o Adelino Ramos e o Galeão, e a irreverência, a contestação e a rebeldia, tão próprias de alguns jovens dos anos sessenta, trouxeram-me alguns dissabores: suspensões, castigos e uma reprovação.
Acabado o curso liceal, uma vez mais, o meu destino já tinha sido pensado pelo meu pai. A Universidade do Porto iria aprisionar-me durante os próximos anos, a caminho de uma formação em Arquitectura. No entanto, durante o Liceu, já outras paixões tinham germinado dentro de mim: o Cinema, como realizador, e as Artes Plásticas. Como nenhum estudo, nestas áreas, tinha a aprovação dos meus pais, a desobediência à vontade paternal voltou a acontecer. A formação em Arquitectura ficou, definitivamente, para trás e em Janeiro de 1967, deixei a minha casa de família, a minha aldeia construída em anfiteatro, a cidade da minha adolescência, e parti para Lisboa.
Levava comigo o estímulo e o impulso gerados pela exposição realizada em 1966 na, então existente, Galeria da Livraria Divulgação, em Viana. Ainda inseguro, mas determinado, decidi mostrar ao público, pela primeira vez, um conjunto de desenhos, guaches e tintas da china. Constatando a elevada presença de visitantes e o interesse que a mostra neles despertou, aquela pequena e tímida experiência transformou-se no meu grande desígnio: uma forte determinação para seguir uma carreira no mundo das artes.
A longa viagem de comboio até Lisboa ofereceu-me, de novo, uma inebriante sensação de liberdade, e a minha bagagem era um enorme baú cheio de sonhos. O mundo parecia estar todo na palma das minhas mãos e tudo aparentava estar ao meu alcance. Havia a consciência de algumas incertezas mas, paradoxalmente, tudo me despertava entusiasmo e arrebatamento. Finalmente, sentia-me ao leme da minha vida e acreditava que ela estava a desenhar os melhores planos para o seu futuro.
A chegada à estação de Santa Apolónia e o trajecto percorrido de eléctrico até à zona da Estefânia, transformaram-se numa experiência de enorme fascinação, de puro deslumbramento.
O eléctrico na noite de Lisboa
Era já de noite. Todos aqueles neons ofereciam uma paisagem urbana cheia de encantamento. Eu, o rapaz saído daquela pequena aldeia e de uma pequena cidade do norte do país, chegava, agora, ao grande mundo e sentia que o Cinema e a Pintura moravam, ali, naquele lugar iluminado. Entretanto, um emprego como inspector tributário estagiário na Direcção de Finanças, acompanhando a verificação das contas das empresas sediadas na Costa do Sol, entre Oeiras e Cascais, ajudava a manter uma vida independente. Passados seis meses e, não querendo acatar uma ordem vinda da Direcção para adoptar uma imagem mais condizente com a minha função, decidi pedir a demissão. Tal decisão, naquele tempo, era o reflexo de uma tomada de posição anti establishement, anti statu quo e de não adaptação às regras. Era a procura de uma liberdade pessoal, que alguns jovens da minha geração lutavam para conquistar. Sabendo que éramos diferentes, queríamos fazer diferente. Era uma geração anticonformista, da contracultura, fortemente influenciada pelos escritos da beat generation, mais concretamente pelo livro On the Road de Jack Kerouac.
         
Livro "On the Road" | Jack Kerouac
Mais ou menos na mesma época, Bob Dylan escrevia e cantava The Times They Are a-Changin': "... ouçam mães e pais, através de todo o país, não critiquem aquilo que não conseguem compreender; os vossos filhos e as vossas filhas já não entendem as vossas ordens e a vossa velha estrada está a cair rapidamente em desuso; por favor não perturbem o novo caminho se não o conseguem caminhar; os tempos estão a mudar."  E tudo mudava rapidamente. O pedido de demissão acima referido foi também motivado pelo desígnio fundamental que transportava comigo: a Pintura e o Cinema que continuavam bem vivos dentro do meu baú de viagem. Naquele tempo, 1967, dizia-se em Lisboa que, estudar Cinema teria de acontecer em Londres, na London Film School ou em Paris, no IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques). Estando vedada a obtenção de um passaporte e a consequente proibição de sair do país por não haver, ainda, cumprido o serviço militar obrigatório, e após uma tentativa fracassada de saída clandestina, os estudos em Cinema ficavam, assim, adiados. A Pintura ficaria em Lisboa. E eu também. Entre 1967 e 1972, os encontros no café Brasileira, o convívio com alguns artistas do movimento surrealista português, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Raul Perez, Fernanda Assis e outros, as exposições inconformistas nos largos passeios do Rossio, o atelier colectivo na Mouraria, as conversas literárias e libertinas com Luís Pacheco nas tabernas da baixa de Lisboa, e as noites de tertúlia e boémia no Botequim de Natália Correia são, agora, lembranças que trazem alguma nostalgia.
Café Brasileira | Lisboa
Em Maio de 1967, querendo vivenciar o nosso "Pela Estrada Fora" (On the Road), eu e mais três amigos saímos de Lisboa, de mochila às costas e à boleia, decididos a percorrer, sem qualquer plano preconcebido, o maior número de quilómetros pelas estradas do país. Era a procura da liberdade, da natureza, do improviso, da aventura no asfalto, apoiadas na prática da amizade e da solidariedade. Na minha bagagem encontravam-se alguns livros, material de desenho e um gira-discos portátil. Na roupa tinha inscrições de apelo à paz (Paix au Vietnam e Make Love Not War), uma causa que sensibilizava muitos jovens naquele tempo de guerras: a do Vietnam e a nossa guerra colonial. Foram estas pacíficas palavras inscritas nas costas do meu blusão de ganga, que vieram a suscitar suspeitas de teor político. Após algum tempo de vibrantes aventuras, chegava, agora, um período de escuridão causado por uma curta, mas sinistra, detenção pela PIDE de Coimbra, juntamente com os meus amigos, por suspeita de actividades subversivas contra a segurança do regime dictatorial em vigor.
Houve interrogatórios assustadores feitos por um tenebroso inspector. Houve ameaças de tortura, humilhações, mas nada acabaria por ser provado.  No auto de libertação (Torre do Tombo), pode ler-se: “Em face dos autos, verifica-se a falta de fundamento da suspeita de actividades subversivas inicialmente alimentada contra os detidos, que, apenas, se alicerçava no seu procedimento um tanto estranho e nas pregadeiras com inscrições de apelo à paz, bem como nos desenhos feitos num bloco de apontamentos, representando um deles, da autoria de A. Pinto Meira, dois nus, um agrilhoado, com os dizeres nous ne sommes pas libres”.
PIDE | Coimbra 1967
Na verdade, pode considerar-se aceitável a explicação apresentada pelos acusados nos interrogatórios a que foram submetidos, na medida em que o seu comportamento traduzirá um estado de espírito, uma mentalidade, uma forma de sentir não muito raras em outros jovens que pretendem fazer-se notados pelas suas extravagâncias. Nestas circunstâncias, restituam-se à liberdade e
arquivem-se os autos (29 de Maio de 1967). Todos os desenhos que eu havia feito durante a viagem e os livros que trazia comigo (Albert Camus, Arthur Rimbaud, Jack Kerouac, Jean-Paul Sartre) não me foram restituídos, sendo confiscados ou, provavelmente, destruídos pela PIDE.
Eu e os meus companheiros do asfalto estávamos de regresso à estrada. Mas, esse asfalto que simbolizava liberdade e aventura, foi sol de pouca dura. Passados alguns meses, a entrada obrigatória, em Mafra, para o curso de oficiais milicianos e, findo este, a subsequente partida, como alferes, para a guerra colonial, em Novembro de 1968, adiavam, agora, com muitas incertezas, a Pintura e o Cinema. A Guiné, e o seu interior mais remoto, num local chamado Piche, foi o meu destino pavoroso e dantesco, o meu pequeno Vietnam. Em Março de 1970, após dezoito meses de serviço militar cumprido em África, eu, são e salvo, estava de regresso a Lisboa com quem selei uma paixão até ao fim dos meus dias. Revisitei essa minha cidade e reencontrei alguns amigos. A outros perdi-lhes o rasto.
Guiné Bissau | Guerra Colonial 1969
O tempo passado entre Mafra e a selva africana, marcou um período perdido, um espaço de poucas memórias, talvez inútil, por nunca ter sido minha escolha. Ficou como um interregno imposto, involuntário, do meu caminho no mundo artístico. Após algum tempo de adaptação, pude concluir que essa indesejada participação na guerra colonial, não tinha provocado, em mim, qualquer transtorno. Estava pronto para reiniciar um percurso que, de certa maneira, esteve suspenso.
 Atelier em Amesterdão  | Oud Zuid 1973
Marquei o reencontro com a Pintura. A ligação a alguns artistas do movimento surrealista português deixou influências e marcou o meu caminho na década de setenta. Embora sabendo que o surrealismo já não se encontrava inserido no contexto das vanguardas, não quis deixar de explorar, na prática, a formulação do Manifesto Surrealista de André Breton (Paris 1924),  
chamado automatismo psíquico: "estado puro, mediante o qual se propõe transmitir verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio o funcionamento do pensamento livre de qualquer controlo exercido pela razão ou qualquer preocupação estética ou moral".
Após algumas exposições, senti que, desta vez, os meus sonhos se tinham tornado maiores do que a própria vida, sendo o meu país demasiado sufocado, fechado e pequeno para os abarcar.  Decidi deixar Lisboa e Portugal.
No verão de 1971, Marijke, a linda holandesa de olhos muito azuis apareceu, assim inesperadamente, olhando alguns desenhos que eu expunha, junto a uma praia chamada Cabedelo. Ela decidiu ficar comigo.
Rapidamente apreendeu o pulsar da minha inquietude e sentiu a minha enorme vontade de percorrer uma estrada muito mais longa e mais aberta. E a minha vida, ao lado dela, iria tomar um rumo, para sempre irreversível. Em fins de 1972, partimos para Paris, onde ela iria terminar os estudos na Sorbonne. Após uma curta estada na capital francesa, chegamos, finalmente, a Amesterdão. Era ali que eu iria permanecer, por muitos anos. Era a minha cidade, o meu céu aberto onde, naquele tempo, tudo parecia ser permitido. Em 1976, eu e Marijke casamos.
Todo o meu trabalho surrealista foi produzido no atelier, anexo à casa que ambos habitávamos, na Cornelis Anthoniszstraat, Oud Zuid. Ela seguiu e estimulou a realização dessa obra, sendo modelo, em alguns desses trabalhos. Entretanto, o curso de realização de Cinema na Nederlandse Filmeacademie era, agora, uma possibilidade. Mas, não aconteceu. A Pintura que estava já a fazer o seu caminho e que estava ali, mais próxima e esperando o reencontro, venceu o Cinema.
CREA Universiteit van Amsterdam UvA | Amesterdão 1977
Decidi frequentar o CREA
| Cultureel Studentencentrum van de Universiteit van Amsterdam e estudar Pintura.
Paralelamente, também, no CREA, um pequeno curso e um curto filme realizado por todos os alunos, serviu para a despedida definitiva do Cinema, podendo, assim, dedicar todo o tempo às artes plásticas. Toda essa labuta criativa iria acontecer num novo atelier na Daniel Stalpertstraat, Oud Pijp, o meu lugar  dos encontros e diálogos solitários entre mim e a tela.  Situava-se muito próximo da Museumplein, esse imenso céu aberto circundado pelo Rijksmuseum, o Stedelijk Museum e o Van Gogh Museum, recheados de centenas de obras primas que eu, frequentemente, visitava para receber influências e estímulos.
 Atelier em Amesterdão  |  Oud Pijp 1983

Numa das Cartas Condenadas publicada na revista literária Vertical (Círculo de Cultura Portuguesa), em Amesterdão, eu escrevia: "Eis-me, sublime, de torneira profundamente aberta jorrando beleza curvilínea e revolta em espiral para o espaço da criação, em pinceladas de exaltação oval. ...assim, suprimo a névoa e ilumino o espaço entre mim e o cândido linho, para sentir o labor do pincel, o aroma do pigmento, no êxtase da forma e da cor". 

Após algumas exposições na Holanda, realizei, em 1978, a minha primeira exposição em Paris, na Galerie Entremonde, ainda com a assinatura de Pintorosha.
Cartaz da Exposição na Galerie Entremonde | Paris 1978



No mesmo ano, participei no "Salon 1978", realizado no Grand Palais des Champs-Elysées, também em Paris.
Após este Salon, chamado "Metamorphoses," e levado a cabo pela Société des Artistes Français, homenageando o surrelista belga René Magritte, decidi que o meu período dedicado ao Surrealismo (década1970), tinha acabado a sua viagem. Ela começou em Lisboa, mas,  foi em Paris, através de um contacto mais próximo com a obra de René Magritte e Paul Delvaux do surrealismo belga, e em Amesterdão, com o mágico realismo de Carel Willink e Peter Koch que determinou a minha permanência, durante os restantes anos da década de setenta, na exploração do mundo onírico e do inconsciente. Entre 1972 e 1978 fervilhavam, em Amesterdão, várias correntes vanguardistas (art conceptual, minimal, land, povera, performances e o interessante hiperrealismo). Com alguma frequência, assistia, no Stedelijk Museum (Museu de Arte Moderna), a inaugurações de mostras de artistas destes movimentos, no entanto, eu continuava a explorar, convictamente, o surrealismo, mesmo sabendo que ele nunca foi muito popular no meio artístico da capital holandesa.
Livro 1972  . 1995 | 45 páginas

Depois, houve um passeio pela Paisagem (década1980), um exercício inesperado traduzido num experimentalismo apoiado em fotografias trazidas para o meu atelier, após uma visita ao Alentejo. A composição é minimalista  depurada onde os elementos típicos da paisagem como árvores, animais, casas e rios, estão ausentes. Encontram-se enfatizados o espaço, a profundidade, a lonjura, a planura e o cromatismo. 
Não querendo percorrer o caminho do rebanho instalado num sistema enganoso e especulativo dos anos oitenta e desagradado com o filistinismo de galeristas, curadores  e directores artísticos que baptizavam no deserto a chamada arte contemporânea,  o meu trabalho seguiu o trilho do experimentalismo nas áreas do desenho a aguada e pó de grafite, serigrafia monotípia, feitura de posters de cinema e  na área da fotografia. 
Seguiu-se a série Contornos (década1990), um dos temas mais inovadores e mais envolventes da minha carreira artística. Sobre este tema, cito, aqui, a apreciação de Hendrik Kramer, no seu texto escrito no catálogo Temáticas 2002-2020"...os  contornos tornaram-se mais largos, multiplicaram-se e alongaram-se, ultrapassando a fronteira do seu propósito convencional e passaram a construir um espaço, agora notório e impositivo"
Contornos | Livro . 80 páginas

As influências do grupo CoBrA ( grupo de artistas de Copenhagen, Bruxelas e Amsterdam) levaram-me à produção do tema Nova Linha (décadas 1990 e 2000). Relevo, aqui, o convívio com Corneille, elemento destacado do grupo CoBrA que, embora tendo sido curto, foi suficiente para, a partir das suas influências, construir, durante um longo período, um vasto conjunto de trabalhos que fazem parte do tema Nova Linha.
Ele apresenta abordagens estéticas e formais muito próximas de alguns trabalhos do grupo CoBrA, onde imperam a espontaneidade, a criatividade infantil e o seu cromatismo, as manifestações da arte primitiva e algumas influências do surrealismo.
Nova Linha | Livro . 100 páginas
 


Houve, durante esse período, como já foi referido, muitos trabalhos em fotografia, desenho, serigrafia monotípia e a feitura de posters de cinema. Houve uma pequena incursão literária na área da escrita, que resultou na publicação de High noon in the hot summer, Cartas Condenadas e um amontoado de manuscritos não publicados. Foram, também, realizadas várias exposições e a participação em feiras de arte e bienais.
Houve, também em Amesterdão, a amizade, a convivência e as influências de artistas, escritores e poetas como Carel Willink, Corneille, Herman Brood, Max Schreuder-Pilawski, Adriaan Walwijk, Maria Esmeralda Mendes, Maria Beatriz, Mila V. Paletti, António Cabeça, Mário Miranda, August Willemsen, Fernando Venâncio e Rentes de Carvalho, entre outros.
Catálogo | Retrospectiva 1970 . 2005 | 30 páginas

Durante todo esse tempo, a minha vida pessoal teve períodos de encontros e desencontros. Em 1979, eu e a Marijke optamos pelo divórcio. A Cláudia, vinda da Austria, foi a minha adorável companheira de aventuras e viagens. A Ria, a bela holandesa, de quem eu tantas vezes desenhei o retrato, foi uma grande paixão. Em 1984, eu e a Ruth, a poetisa e encantadora “amsterdammer,” encontrámo-nos. Aconteceu na vernissage da exposição colectiva “Veins” em Amesterdão. Saímos, jantámos juntos e, nos próximos quinze anos, nunca mais nos separamos. Ela foi a minha companheira inspiradora que me acompanhou e assistiu na construção e produção de muitos trabalhos e na realização de muitas exposições na Europa.
Catálogo | 40 páginas

Passaram quase trinta anos desde a minha chegada à Holanda, naquele frio Novembro de 1972. Esse período vivido na minha irreverente Amesterdão, estava a chegar ao seu termo. Tudo teria sido muito diferente se, em 1972, eu não tivesse decidido deixar Portugal e acompanhado a linda holandesa de olhos muito azuis, a caminho de Paris e Amesterdão. A minha evolução artística e cultural foi mais cheia, mais inteira. Tendo a minha integração na sociedade e na cultura holandesa sido muito rápida por via do meu casamento com a Marijke, os meus contactos e a minha participação na cena artística de Amesterdão foi, também por isso, mais facilitada. A aprendizagem e as influências vindas desses contactos estão bem patentes em muitos dos meus trabalhos.
Em fins de 1999, aconteceu o meu regresso a Portugal, àquela linda aldeia da minha infância, construída em anfiteatro.
Catálogo | 68 páginas
De novo, cheguei a casa dos meus pais a quem eu tantas vezes desobedeci, para seguir o caminho que a minha vida tinha pensado para mim. Herdei a casa de família, hoje Casa da Colunata, e um atelier construído no piso térreo permitiu a continuidade do meu trabalho criativo. O tema Nova Linha, trazido de Amesterdão, adaptou-se a outro clima e permaneceu durante alguns anos. Seguiu-se o tema Faces (década 2000) que, ainda hoje, vai fazendo parte do meu trabalho.
Catálogo | 60 páginas
Para além dos acrílicos e técnica mista sobre tela, foi produzida, paralelamente, uma vasta quantidade de trabalhos sobre papel e cerâmica.
Chegou 2007. A minha vida iria, uma vez mais, tomar um novo rumo. Eu e a doce Tuxa casamos. Aconteceu na pequena capela da minha casa, onde os meus queridos pais, num passado, já longínquo, sonharam ver o filho celebrar missa. Nesse dia, a missa de casamento foi celebrada pelo seu neto, meu sobrinho, Padre José Domingos Meira, e eles foram lembrados. Entretanto, o meu atelier em Deucriste transformou-se na minha galeria de arte. A cidade de Braga iria ser, ao lado da Tuxa, o lugar do início de um novo ciclo no meu percurso artístico.
Atelier | Braga

Um oitavo andar, cheio de luz, foi remodelado e passou a ser o meu novo atelier de pintura e o meu estúdio de fotografia. Aí, foram produzidos Interiores (2009), Outras Faces (2010), Exteriores (2012), Fotografia (2013), onde estão incluídos Parallel Lines, Somewhere, Artistic Composites e Complementary Colors. Seguiu-se Arte Digital (2014), Novas Faces (2015), Cutouts 1 (2016), Faces of Renaissance Madonnas (2017), Moving Figures (2018) e Cutouts 2 (2019 . 2020). Imagens de obras destes temas podem ser vistas em www.pintomeiragallery.com. Foram realizadas várias exposições individuais e colectivas, abarcando os temas acima mencionados.
Catálogo | 32 páginas

Estamos em 2016. Passaram 50 anos desde a realização da minha primeira exposição na cidade de Viana, em 1966. Na sua inauguração, algumas dezenas de guaches e desenhos, alinhados naquelas quatro paredes, e as pessoas que os olhavam, encorajaram-me a pensar que, aquela pequena exposição, era o início, firme e inabalável, de um caminho no mundo das Artes Plásticas. É aí que ainda me encontro: na Pintura, na Fotografia e na Ilustração. Os “períodos sabáticos”, são avidamente preenchidos com alguns escritos: ensaios, textos, estudos, papers.   
Nesse caminho, foram criados cerca de oitocentos trabalhos em diversas técnicas e diferentes disciplinas, realizadas mais de uma centena de exposições individuais, inúmeras colectivas, algumas bienais, conferências e encontros. Algumas centenas de trabalhos fazem parte de colecções privadas, colecções públicas e institucionais espalhadas por diversos países. 
A passagem dos 50 anos de carreira artística foi o pretexto para a realização de uma Exposição Antológica com cerca de 100 obras, muitas oriundas de diversas colecções e o motivo para a edição do livro bilingue, de capa dura e 500 páginas, com o título Pintomeira Pintura | Fotografia. Foi, também, a razão para a atribuição, pelo Município de Viana do Castelo, da medalha de cidadão de mérito “pelos relevantes serviços prestados às artes plásticas e à cultura vianense”.
Livro capa dura | 500 páginas




No entanto, o baú da minha primeira viagem para Lisboa, em 1967, transporta, ainda, muitos sonhos. Eles são o futuro que eu terei, ainda, de cumprir.
Catálogo | Retrospectiva 2002 . 2020 | 40 páginas
Este meu percurso nunca foi uma monótona linha recta. Nessa estrada, passei por muitos cruzamentos e entroncamentos e a direcção que então foi escolhida, conduziu-me até aqui. Foi assim que eu sempre quis que fosse. 

Escrito segundo as regras do anterior acordo ortográfico 

Publicado (inglês) em: Academia.edu
https://www.academia.edu/43417810/Road_to_the_art_world

Publicações
Het Parool | Recensie Cultuur Supplement | Kunst Expositie, Surrealisme, Galerie Jollijst, Februari 1975, Amsterdam, Netherlands
Metamorphoses | Le Salon 1978, Surrealisme | Catalogue Hommage à René Magritte, Grand Palais,
Paris, France, 1978
Le surréel maniériste | M. de Hartog | Catalogue Expo Galerie Entremonde, Paris, France, 1978
Pintomeira | Livro, Amsterdam, Netherlands 1995 | De Appelbloesem Pers publishing | artworks produced 
between 1972 and 1994
Het Surrealisme van Pintomeira ( Pintorosha), 1978, intervieuw in tijdschrift Rath & Doodeheefver, Amsterdam, Netherlands
Contours 1997 | Donald Meyer, art critic, Amsterdam, Netherlands | Text  Contours ISBN 90 7045 9167
Contours | Contornos | 1998, De Appelbloesem Pers publishing, artbook, Amsterdam, Netherlands,
ISBN 9070459167
Catalogue Pintomeira - Pintura | 1999, Visão Gráfica | Pintoart | Depósito Legal 144276/99
Da Silhueta ao Pintor 2002 | Texto de Alberto Antunes de Abreu, historiador, escritor, ISBN 972-9071-37-3
Pintomeira | Pintura; Catálogo Nova Linha, 2003, depósito legal 205550/04, ISBN 972-9071-37-3
Latitudes | Cahiers Lusophones, | Texto de Egídio Álvaro, crítico de arte, Paris, 2004, ISSN 1285-0756
Catalogue Pintomeira | Pintura, 2006 | retrospectiva 1970-2005 | Textos de Alberto Antunes de Abreu, Donald Meyer, Egídio Álvaro, Arlette Salgado Faria e Luis Chaves, 
http://www.worldcat.org/identities/viaf-284531829/
Da manipulação dos objectos à sua desmaterialização 2006 | Texto de Alberto Antunes de Abreu, historiador, escritor | catálogo retrospectiva 1970 | 2005
Catálogo Interiores 2009 | Pintomeira | Pintura, Enter Impressão Lda |
Exposição Interiores Museu D. Diogo de Sousa, Braga
Interiores | entrevista vídeo sobre o tema Interiores 2009 | localvisão | noticias, pintomeira
A erótica dos objectos 2009 | Texto de Moisés de Lemos Martins, Universidade do Minho, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), Catálogo Interiores
Outras Faces | Pintura | Pintomeira; 2010, Pintart, Catálogo, depósito legal 311065/10,
ISBN 978-989-20-1997-0
O espaço paradoxal da desaparição do sujeito 2010 | Texto de Moisés de Lemos Martins, Universidade do Minho, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), catálogo Outras Faces
ISBN 978-989-20-1997-0
Exteriores | Interiores | Pintomeira; 2011, Pintart, Catálogo, depósito legal 330722/11,
ISBN 978-989-20-2614-5
Exteriores & Interioridades 2011 | Texto de José Luís Ferreira, sociólogo, escritor, investigador de arte | Membro Académico Ind. IAA/AIE –International Association for Aesthetics,| catálogo Exteriores | Interiores ISBN 978-989-20-2614-5
Interiores. Exteriores | FCT Universidade Nova, Lisboa, publicação Design em Lisboa 2011
http://design-em-lisboa.blogspot.com/2011/11/pintoneira.html
ArtWall, International Contemporary Art 2011 Zine, Internet Solutions and Publications,
International Comtemporary Artists; 2012, ICA publishing, New York, USA, ISBN 9786188000728
Prospero International Art Book; 2012, INSAT publishing, copyright 2012 Insat Lda,
ISBN 978-972-97566-6-5
Art Unlimited, MOT publishing, Contemporary Artists. 2014, Londres, UK, ISBN 978-91-89685-28-8
Somewhere | Catálogo Studio Photography | 2014, Pintart, depósito legal 376075/14, ISBN 978-989-20-4820-8
Fotografias como pinturas sobre telas. A declinação da melancolia 2014 | Texto de Moisés de Lemos Martins, Universidade do Minho, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) | Catálogo Somewhere
ISBN978-989-20-4820-8
Os Cut-outs como metáfora do nosso tempo 2015 | Ramon Villares, História Contemporânea, Universidade de Santiago de Compostela, Presidente do Conselho da Cultura Galega | Publicado em Catálogo Cutouts
ISBN 978-989-20-6470-3, Março 2016
Cutouts | Pintura, 2016, Pintart, Catálogo, Depósito legal 405846, ISBN 978-989-20-6470-3,
Março 2016
Fragmentos de uma viagem 2016 | Álvaro Laborinho Lúcio, Juiz Conselheiro, escritor, 
Os limiares dos encontros 2016, Marzia Bruno, Curadora | História da arte, Estudos Museológicos e Curadoria https://issuu.com/pintomeira/docs/book_500_pag._hardcover_._2016  | pag.115  
Pintomeira | Painting | Photography 2016, Livro capa dura, 500 páginas, edição CM Viana do Castelo,
ISBN 978 972 588 255 9
An Empire of Signs 2017 | https://www.rit.edu/spotlights/o-imperio-de-sinais-empire-signs | Essay by Michael Amy Ph.D. | College of Imaging Arts & Sciences, Rochester Institute of Technology, Rochester, USA
7 Fragmentos em A, 2018 | A figura feminina e a quentura das cores | Arlette Salgado Faria,
ISBN 978-972-588-265-8
Autopsying the moribund art blader 2018, essay by Pintomeira
MoMA issue of World of Art Contemporary Art Magazine | Publishing World Of Art (WOA), 2020 | Londres, UK | ISSN: 1404-3408
ISBN: 9789189685451
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