13.4.21

                                                              Santuário de Nossa Senhora do Crasto

 

Sendo hoje o dia da realização das festividades em honra de Nossa Senhora do Crasto e da celebração da sua secular devoção, aproveitamos para assinalar, aqui, que a vasta vegetação arbórea que foi crescendo à volta da Capela, na sua parte poente, fez com que esta deixasse, praticamente, de ser vista a partir da maioria dos lugares da freguesia.
Tratando-se de espécies protegidas, elas não poderão ser abatidas havendo, no entanto, a possibilidade de serem podadas, o que para além de ser saudável para a sua manutenção, irá facultar uma maior observação e contemplação da Capela de Nossa Senhora do Crasto como sempre acontecia em tempos anteriores ao crescimento desmesurado e descuidado desse arvoredo.
As gentes de Deucriste querem ver a sua capela e os seus brancos muros, não só por motivos espirituais, mas também por razões arquitectónicas.
Assim, em nome de muitos deucristenses, apelamos ao bom senso do proprietário do referido arvoredo, situado na parte poente, para que o mande podar, possibilitando a visão e contemplação do Santuário de Nossa Senhora do Crasto, em todo o seu esplendor. 

O mesmo acontece noutros Santuários, apontando o da Senhora do Sameiro, em Braga, como exemplo.

11 | 04 | 2021

Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

8.3.21

 

A arte nas últimas décadas do século XX e o início de uma nova decadência

 

Pintomeira | Artista Plástico | Ensaísta

 

Arte Conceptual

Land Art

Body Art

Performance Art

O Regresso da Pintura

2000 | 2020

 

Não tendo ficado adormecido à sombra de alguma nostalgia pelas vanguardas da arte moderna (embora ela exista) e não me considerando, nunca, um misoneísta nem tão pouco um conservador, declaro que o mundo das artes plásticas resvalou, nas últimas duas décadas para a valeta da decadência.

 

ARTE CONCEPTUAL  


Na década de 60 e, principalmente, na de 70, a chamada Arte Conceptual surgiu de mãos vazias e com a mente dos seus mentores cheia de ideias, significados, conceitos e escritos de parede e ready-mades de ready-mades, rejeitando e abominando a genuína obra de arte (pintura, escultura). Pior que isso, ela conseguiu impor-se num certo meio artístico com a aquiescência e o aplauso dos filistinistas habituais (críticos, curadores, directores artísticos e outros). 

 

Conceptual art | Jacek Tylicki | 1974

 

Clemente Greenberg1 (1909-1994), conceituado crítico norte americano, defensor do expressionismo abstracto e, em particular, da obra de Jackson Pollock, considerou o conceptualismo como uma reacção adversa ao formalismo até então dominante na cena artística. Eu, fundamentado nas afirmações escritas por Joseph Kosuth2 e Lawrence Werner3 sobre a arte conceptual, assumo, sem embaraços, que na sua origem houve uma acomodação preguiçosa e facilitista e um pedantismo intelectual que, segundo o crítico britânico Julian Spalding4 “...ela (arte conceptual) ufana-se por ser incompreensível para todos à excepção de uns poucos membros do grupo ... artistas que produzem uma cultura de diversão”.

 

Arte Conceptual | Ideias Chave

 

Não uso nenhum púlpito, oratória ou enunciação escrita para defender uma definição estabelecida e exclusiva de arte, ela não permite uma designação específica, uma denominação própria. Ela é o seu próprio dogma, o seu conceito e a sua própria definição e é o artista que lhe confere a sua afirmação material, física.

A obra de arte é preconcebida, ab initio, na mente do seu criador, não passando nesse momento, de uma vaga e intangível ideia, um conceito. A sua corporização e materialização, nas diversas linguagens, será efectuada pelo artista, posteriormente, no seu estúdio.

Os conceptualistas refutam este enunciado. O norte americano, Lawrence Werner, artista conceptual, na sua “declaration of intent” (1968), formula que a obra não necessita de ser concretizada, afirmando que se deveria renunciar à prática da criação de uma obra física, bastando a sua ideia para que tal seja considerada uma obra de arte. Acentuando esse vazio de criatividade, o seu colega Joseph Kosuth, sustentando a sua delirante formulação “ideia-arte” afirmou que uma mera proclamação de uma qualquer ideia artística poderia ser qualificada como uma obra de arte.

Durante as décadas acima referidas, directores artísticos e curadores de reputados museus e de prestigiadas galerias, acolitados por críticos embebidos num filistinismo obtuso, realizaram mostras de elevada atracção circense, enfeitadas com obras “ideia-arte” e presenciadas por ufanos membros do grupo e outros visitantes interrogativos, mas despojados de respostas.

 

1Clement Greenberg: Late Writings. Reputado crítico de arte, esteticista formalista norte americano, muito ligado à arte moderna americana de meados do século XX,

2 Joseph Kosuth (1945), é um artista conceptual norte americano / https://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Kosuth

3Lawrence Werner (1942), é um artista conceptual norte americano, sendo considerado uma figura importante do “Postminimalism,s conceptual art”. / https://en.wikipedia.org/wiki/Lawrence_Weiner

4 Julian Spalding (1947) Crítico de arte e escritor inglês, dissidente e polémico do mundo da arte / https://en.wikipedia.org/wiki/Julian_Spalding

 

 

Durante os anos setenta, vivendo em Amesterdão, capital da Holanda, eu costumava enviar a alguns amigos, escritos a que chamava “Cartas Condenadas.”5

Elas denunciavam uma crítica provocatória relacionada com o advento do pós-modernismo quando o mundo da arte começava, de olhos vendados, a procurar novos caminhos e a tropeçar nas instalações feitas de pedras amontoadas nas salas dos museus, desapontando os amantes da genuína obra de arte apavorados com tendências artísticas de uma petulante diversão.

Apresento, aqui, alguns excertos dessas cartas condenadas:

“Eis-me, expectante, sentado em poltrona alta, olhando a alva tela! Textura morta sedenta de agitações vivas e vibrantes. Eis-me, extasiado de torneira redondamente aberta, jorrando beleza convulsiva e curvilínea e revolta em espiral para o palco da representação, onde a alva tela será violentada por pinceladas de exaltação oval.

...Ah! sarcasmo gigante, ironia, como comboio veloz, esbelto, próximo do descarrilamento. Descoberta de linhas e traços como barco à deriva avistando porto desconhecido.

Rebuscarei e cinzelarei a pedra até à descoberta da nova forma. Romperei as botas que para isso forem necessárias e dançarei a louca Primavera sobre a mesa da delícia, esperando o sol do Verão tórrido.

Nada de grande e sublime foi criado sem exaltação nem paixão!

Nunca puritano, celebrarei sempre a nova ideia e levantarei a minha taça bebendo ao meu renascimento contínuo.

Assim suprimirei a névoa e iluminarei o espaço entre mim e a cândida tela-linho para, finalmente, sentir o labor do pincel, o aroma do pigmento, no êxtase da cor e da forma. Depois, nada existe que não tenha jorrado das minhas entranhas e atravessado o salão azul do meu inconsciente.”

 

 5 Publicações em diversas magazines de arte e letras e textos sobre artes plásticas

   

 

LAND ART

 

Os fortes movimentos da contracultura e do anti-establishment na última metade dos anos 60 e durante a década de 70 foram a potente locomotiva que abalroou e desmantelou o “statu quo ante”, dando lugar a um período de delírios e devaneios na produção criativa a que o mundo da critica e da história da arte passou a denominar de arte contemporânea. A arte moderna passou a ser considerada um pretérito ferrugento e rançoso, embora, às escondidas, todos viessem beber da sua fonte. As suas vanguardas, movimentos e estilos representavam um passado que alguns museus se preparavam para retirar das paredes e encafuar nos seus depósitos para dar lugar a algumas divagações e efemeridades.

Embora fora das salas dos museus, uma das efemeridades mais manifesta durante a década de 70 ficou conhecida (talvez já esquecida) por Land Art (Earth Art). As suas criações ou embustes artísticos eram realizados no exterior, tendo como suporte os mais diversos espaços da natureza: as montanhas, o campo, o mar, os lagos e mesmo o deserto.

O impulso que os levou a abandonar os espaços dos museus e galerias teve a sua germinação no movimento da contracultura Hippie6 que preconizou e experienciou, nos anos 60, a recusa dos ambientes burgueses e urbanos e optou pelo regresso à natureza.

Os artistas da Land Art deixaram, efectivamente, o studio e saíram para a natureza, não como os impressionistas do século XIX que a representaram sobre a tela trazendo uma incontestável inovação para a linguagem da pintura, mas usando-a como suporte e mesmo abusando dela para praticar diversões de recreio e exteriorizações tão sumptuosas como insultuosas e muitas vezes pagas pelo erário público.

A paisagem, como local de acção, não reconheceu o intruso e a obra realizada parecia alheia e ausente, não sobreviveu e, passado meio século e toneladas de pedra, areia e quilómetros de tecido, tudo desapareceu, muitas vezes destruído pelos fenómenos imprevisíveis e nefastos provocados pela exposição à própria natureza.

 

                                                                 Land Art

 

O artista conhecia a curta duração da sua obra e sabia que ela, pelas suas dimensões e características só poderia ser concretizada fora dos espaços expositivos dos museus e galerias, manifestando, deste modo, a sua resistência e objecção a esses ambientes e a sua desaprovação à industrialização e comercialização da obra de arte.

Os “Land Arters” utilizavam, predominantemente, recursos naturais, como pedras, madeira, terra, folhas, areia e têxteis, pretendendo uma fusão da arte com a natureza, tendo constatado uma crescente preocupação pelos problemas ecológicos. Reconhecendo a falta de durabilidade destes trabalhos, houve o acautelamento de efectivar uma documentação e registo em fotografia e video.

O norte americano Michael Heizer, considerado uma figura proeminente da land art, afirmou: “Penso que a terra possui o maior potencial porque é o material de fonte original”.

Outra figura conceituada foi o inglês Richard Long que trabalhou formas geométricas como espirais e círculos, tendo declarado: “Nas obras de paisagem, as pedras estão no seu lugar e ali permanecem ...a sua selecção é usualmente ocasional”

Contribuíram para este curto divertimento, artistas como Robert Smithson, Christo, Walter de Maria, Robert Morris, Andy Goldsworthy e o já mencionado Richard Long. 

 

6 Movimento que surgiu em meados dos anos 60 nos USA (Sao Francisco) e permaneceu activo até finais dos anos 70. Representava um movimento da contracultura, do anti-establishment e do pacifismo. Viviam em comunhão com a natureza e em desacordo com os valores tradicionais da classe média. Suas expressões mais conhecidas: "make love not war", "Peace and Love" e "Ban the Bomb".

 

BODY ART


Também classificada como uma expressão da arte contemporânea dos anos 70, surge a Body Art, onde o corpo do seu autor era o seu próprio suporte.

Assim como a Land Art, também esta expressão artística teve a sua prenhez durante a segunda metade dos anos 60, expressa nas exteriorizações do movimento Hippie. Estes artistas desenvolviam a sua linguagem estética usando

a cultura do corpo, libertos de preconceitos e, uma vez adquirida a tão ambicionada liberdade sexual, exibiam a sua nudez e erotismo para realizar trabalhos de pinturas muito cromáticas e vivazes, mas finitas e fugazes no tempo.

A forte ideia carnavalesca denunciava o desejo de afastar a prática tradicional da brush - and – canvas onde a história da arte se tinha centrado. Ela manifestava, muitas vezes, o narcisismo e o egocentrismo do artista que nunca conseguiu cativar o entusiasmo de um público que defraudado, voltava as costas a esses momentos de diversão.

Mesmo assim, não rejeito a beleza e a sensualidade do movimento body art na utilização do corpo total ou parcial e desnudo, tornando a sua prática numa efectiva manifestação da expressão estética e artística.

 

 

PERFORMANCE ART 


A Performance Art, irrompe, também, museus adentro como uma expressão das artes visuais, principalmente no início da década de 70. A sua hibridade faz com que ela apareça noutras linguagens como palcos de teatro ou podia de concertos musicais. Ao contrário do Happening, aqui o artista(s) é o autor único e central de todas as atenções. Este exibicionismo pacóvio tem a vantagem de ser passageiro e efémero. O performer(s), tão irreverente como petulante, nutria o secreto desejo de se transformar numa obra de arte viva e permanente do museu, deleitando-se com a eternidade da fama e a perene utilidade do seu corpo.

 

Stedelijk Museum nos anos 70 | Amesterdão

 

Numa das minhas visitas ao Stedelijk Museum7 de Amsterdão que ficava muito próximo do meu studio, nesses tempos liderado pelo arrojado director Edy de Wilde, deparo-me, numa das suas salas, com um ser masculino, vivo e desnudo, peludo e mudo, exibindo todo o seu corpo em contorções e trejeitos, sobre um estreito pedestal. Era chamada uma escultura viva na linguagem dos críticos mais entendidos sobre a matéria.

 

O espaço circundante era povoado por alguns espectadores, uns absortos, alguns reflexivos e a maioria exteriorizava risos que denunciavam gracejos de uma certa zombaria. Eu observei, distante e imperturbável, a tribo que se divertia numa sala de um prestigiado museu que, naquele momento, exibia uma parte do desvario da recém-denominada arte contemporânea.

Esta intitulação, arte contemporânea, tinha entrado, definitivamente, no léxico dos historiadores, ensaístas e críticos de arte e a sua época tinha começado a fazer o seu trajecto, permanecendo até aos dias de hoje, muitas vezes de um modo inadequado e incongruente.

 

7Museu de arte moderna e contemporânea (século XX e XXI) de Amesterdão, Holanda. Possui um notável acervo de cerca de 100.000 peças onde se destacam obras de Henry Matisse, Marc Chagal, Kasimir Malevvich, Piet Mondrian, Wassily Kandinsky, Jackson Pollock, Karel Appel, Andy Warhol, entre outros.

 

O REGRESSO DA PINTURA

 

A década de 80 viveu uma explosão de grande vitalidade artística quando um grupo de jovens viraram costas à arte farsante, excessivamente intelectualizada, hermética e “incompreensível para todos à excepção de uns poucos membros do grupo – Julian Spalding” e regressou à praxis da brush-and-canvas. Era o retorno à experiência sensorial da pintura celebrado na XVIII Bienal de São Paulo, em 1985, com o dístico Grande Tela.

Rudi Fuchs, historiador de arte e director do Stedelijk Museum de Amesterdão durante os anos 90, declarou:

“A pintura é salvação. Representa a liberdade de pensamento, é sua expressão triunfante. (...) O pintor é um anjo da guarda que bendiz o mundo com sua paleta. Talvez o pintor seja o querido dos deuses.”

 

Embora durante as décadas anteriores a pintura sobre tela e outros suportes nunca tenha abandonado os studios de alguns artistas (David Hockney, Francis Bacon, Lucien Freud, Jasper Johnes, Paula Rego, Roy Liechtenstein e muitos outros) é um facto que o enfoque estava instalado nas linguagens acima caracterizadas, sendo a arte conceptual a que conquistou maior relevância e alcance internacional devido à sua diversidade alicerçada nas inúmeras práticas e formas de expressão. Mesmo assim, creio que o futuro Grande Livro da História da Arte não lhe irá dedicar muitas páginas por não ter tido a capacidade de, não só, entusiasmar ou influenciar o comportamento humano, mas também pelas suas características demasiado emproadas e arrivistas no mundo da arte e pela sua natureza efémera.

 


Pool with two figures | 1972 | David Hockney

 

Os anos 80 marcaram o regresso das telas às paredes dos museus e galerias de uma maneira expressiva e incontornável e assinalaram o retorno à obra de arte criada pela técnica brush-and-canvas. A arte minimalista, conceptual, performance, land art, Fluxus, Joseph Beuys, Wolf Vostel e outros perderam relevância quando um grupo de jovens artistas os confrontaram com o retorno à obra figurativa quanto ao seu aspecto formal e à pintura sobre a tela tradicional quanto à sua execução.

Revivalismos de temas tradicionais aparecem como expressão livre e individual, em fins de 1970 e particularmente durante a década de 80 usando radicais e adjectivos como trans, neo, pós e libre que começaram a fazer parte do léxico de textos e ensaios escritos por críticos e historiadores sobre a nova Pintura. Esta secular linguagem imagética estava de regresso às nuas paredes dos espaços expositivos tradicionais, trazendo com ela multidões de espectadores sequiosos das criações pictóricas nas artes plásticas e que tinham sido desaprovadas ou mesmo proscritas por alguns mentores do conceptualismo. 

A Transvanguarda foi um movimento italiano que teve como autores de destaque Francesco Clemente, Mimmo Paladino, Enzo Cucchi e Sandro Chia e que reagiu à Arte Povera desenvolvida durante a década anterior.

 

Untitled 1984 | Francesco Clemente

Os seus trabalhos são representações figurativas, tendo o corpo humano uma presença relevada, demonstrando uma observação e preocupação pela individualidade e pela natureza do ser humano. A representação desses corpos é elaborada de forma vigorosa, sobre telas de grandes dimensões produzidas com cores e pinceladas expressivas e possantes.

O Neoexpressionismo (Neue Wilde), surgindo como uma reacção ao minimalismo e à arte conceptual, ocorreu na Alemanha, acabando por se expandir por outros países europeus e pelos Estados Unidos da América, principalmente durante a década de 80.

Tal como a Transvanguarda, também considerada uma manifestação neoexpressionista, os jovens artistas alemães do Neue Wilde, procuraram resgatar a pintura como novo meio de expressão artístico associado, de certa maneira, à sua identidade cultural.

 


Marcel's Savation 1988 | Jorg Immendorff

 

Os seus artistas dedicaram-se ao desenvolvimento de uma expressão imagética do corpo humano e objectos, usando materiais diversos como palha, ferro, louça quebrada, chumbo e outros meios vulgares e simples. A tela de grandes dimensões era o espaço preferido para as suas representações estéticas onde a figuração era expressa com intensidade e vibração, muitas vezes associada a propósitos e intenções políticas, mitológicas ou religiosas e a um imaginário de simbolismos.

Na Alemanha, os artistas Jorg Immendorff, Markus Lupertz, Georg Baselitz, Anselm Kiefer e A.R. Penck foram os grandes praticantes e impulsionadores desta nova tendência de expressão plástica.

Nos Estados Unidos da América, principalmente no meio artístico de Nova York, o neoexpressionismo teve também a sua relevância e forte expressão, destacando a obra de Jean Michel Basquiat, Julian Schnabel e Eric Fischl.

 

Untitled 1889 | Rémy Blanchard

 

Na França, o regresso à Pintura, à praxis da brush-and-canvas acontece no início dos anos 80. Emanado de uma rejeição drástica e enérgica à arte desmedidamente intelectual e anafada por uma narrativa de retórica pedante que dominou as duas décadas anteriores, o movimento chamado Figuration Libre era caracterizado por uma expressão imagética fortemente figurativa e vigorosamente cromática.

Distinguiram-se como importantes protagonistas deste movimento os artistas Robert Combas, Remi Blanchard, Richard Di Rosa e Francois Boisrond. Este último formulou desta maneira as motivações do grupo: “Nós estávamos fascinados pela art brut, pelo hard rock, pelas manifestações punk.... por tudo o que era popular, violento e medíocre... mergulhar na cultura mais desprezada e confrontar o quotidiano, renovar as temáticas e viver a pintura do presente.”

O regresso dos artistas aos ateliers e à Pintura, na década de 80, coincidiu com uma grande euforia no mercada da arte, criando grande excitação comercial e especulativa, ao mesmo tempo que tudo parecia ser considerado arte e tudo se comprava ou se vendia.

 

2000 . 2020

Apesar de o brush-and-canvas ainda tivesse tido continuidade durante a década de 90, a relevância dedicada a essa prática foi-se perdendo uma vez que a atenção dos novos críticos, curadores e galeristas começaram a desviar os interesses do mercado para outras linguagens que iriam transverter e mesmo defraudar o mundo da arte.

Nas últimas duas décadas (2000-2020), os agentes do mundo da arte, os novos filistinistas, quiseram impor ao especulativo mercado, uma bagunça criativa de produtos fabricados por artistas que, oportuna e habilidosamente, aceitaram uma posição de tutela e subordinação a esses mesmos agentes e a esse mesmo mercado. Galvanizados pela nova linha seguida pelas bienais de prestígio e incentivados por alguns desviantes directores de museus e galerias, o novo artista transformou-se num fazedor de qualquer coisa fortuita e aleatória, muitas vezes gigantesca, que pudesse encher as salas desses espaços expositivos.

Contratados pelos fazedores destas expressões artísticas, carpinteiros, operários ferreiros, pedreiros e bordadeiras começaram a produzir revivalismos de ready mades e outros devaneios nada inovadores ou, segundo Julian Spalding: “...pretensiosas profanidades arrancadas do alto da cabeça dos artistas.

 

Instalação

 

Trabalhos como fotografias de aniversário e turismo, fortuitas instalações de bricolage, acumulação, ao acaso, de destroços e lixo, ready-mades de ready-mades, transformações levianas e aleatórias e gigantes objectos de uma enorme vulgaridade, tem confiscado, nas últimas décadas, grande parte dos espaços de museus e galerias.

 

Insurjo-me de uma maneira inexorável contra esta produção fraudatória e ardilosa fabricada por artistas indolentes e acomodados a um sistema sustentado por galeristas, curadores e directores artísticos que detêm um desmesurado poder no mercado e a responsáveis pela gestão de políticas da cultura quando estas utilizam o erário público para a realização de extravagâncias e aberrações que fazem parte de projectos urbanos que a maioria da população rejeita.

 

O Grande Livro da História da Arte, construído ao longo de séculos, mas principalmente desde Georgio Vasari (1511-1574), transporta dentro do seu sagrado e imensurável miolo o testemunho do iluminado e magnificente talento de prodigiosos artistas renovadores e vanguardistas que aprendemos a admirar e a reconhecer. 

Confrontando uns presunçosos praticantes do conceptual e outros farsantes "instaladores" e "construtores" do contemporâneo, trago aqui alguns nomes sagrados  desses  prodigiosos artistas que, através dos tempos, inovaram e enriqueceram, de facto, a História da Arte: Giotto Di Bondone, Andrea Mantegna, Piero della Francesca, Sandro Boticelli, Leonardo Da Vinci, Michelangelo Buonarroti, Rembrandt van Rijn, Diego Velasquez, Johannes Vermeer, Nicolas Poussin, Jean-Honoré Fragonard, Eugene Delacroix, Francisco de Goya, Gustave Courbet, Paul Cezanne, Vincent van Gogh, Henry Matisse, Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Salvador Dali, René Magritte, Jackson Pollock, Willem de Koning, Karel Appel, Andy Wahrol, Roy Lichtenstein, David Hockney, Markus Lupertz, Anselm Kiefer, Eric Fishl, Paula Rego, Francis Bacon, Banksy, Vhils, entre muitos outros.


Esse sagrado livro não pode ser desonrado com páginas onde são referidas manifestações de “...pretensiosas profanidades arrancadas do alto da cabeça de alguns artistas”, citando de novo Julian Spalding. Tais manifestações foram instigadas por um especulativo e poderoso mercado ligado e maquinado pelos, já muitas vezes, mencionados filistinistas (galeristas, curadores e directores artísticos), nas últimas décadas.


"Este sistema que alimenta um dissimulado e enganoso ambiente artístico é, agora, capaz de transformar um qualquer “instalador” ou “constructor” numa pessoa famosa e endinheirada, mas é incapaz de fazer dele um Artista", (in É urgente autopsiar a bexiga da arte moribunda).


Principalmente, durante as duas últimas décadas (2000 . 2020), a mudança mais significativa no mundo da arte foi a maneira como o mesmo foi alavancado e comercializado pelos seus agentes e não com o surgimento de um movimento inovador, vanguarda ou novo estilo. Hoje, o mundo da arte assemelha-se muito mais a uma corporação multinacional, a uma empresa cotada em bolsa, a uma indústria de pequenas e micro empresas do que a um conjunto de artistas criadores e inovadores  ligados a instituições de promoção cultural.

 

Escrito segundo as regras do anterior acordo ortográfico

 

Pintomeira | 2021

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.11.20


 

Arte Digital | A Computação Gráfica nas Artes Visuais


Pintomeira 2020

 

No princípio era o computador. Era o tempo dos engenheiros, cientistas, dos algoritmos e das tecnologias. 

Na década de 1960, surge a computação gráfica e o cientista depara-se com a possibilidade de produzir imagens, iniciando, assim, uma nova abordagem conceptual que o levaria a pensar como conceber  arte em ambiente computacional.

 

                                                   Computação Gráfica  Ivan Sutherland usando o Sketchpad in 1962

 

O primeiro ensaio destinado  a conceber obras de arte com a utilização do computador ocorreu nos fins da década de 1950, quando o cientista e o matemático, ainda que de maneira ocasional, se depararam com essa possibilidade. Esses trabalhos representavam, na sua maioria, padrões geométricos, linhas e traços de caracterizações gráficas. Estava lançado o embrião para o advento da arte digital. Estas experiências iriam revolucionar o modo como a arte poderia ser criada, visualizada e distribuída. 

 

Nos anos posteriores, o cientista ao transmitir a sua experiência ao artista, este apoderou-se dessa possibilidade e, a partir desse momento, começou a produzir, agora de uma forma deliberada, as suas criações artísticas em modo computacional, embora ainda, num contexto do experimentalismo intencional. 

 

Arte digital - young nude
Young Nude  (primeira imagem digital . década de 60)
 Keneth Knowlton e Leo Harmon
 

Na década de 1960 foi iniciada uma revolução digital que, tendo alcançado o mundo da arte e chegado aos estúdios dos artistas, ela iria incentivar estes a criar novas manifestações de expressão artística e novas concepções estéticas  que reflectiam o seu tempo, o tempo da arte contemporânea, esta integrada num mundo com grande fluência de informações e inovações tecnológicas, derrubando barreiras no processo de laboração, no uso de novos materiais e diferentes suportes. Neste contexto, o suporte era virtual sem fisicalidade e os materiais e ferramentas eram programas específicos de software. Utilizando os ambientes gráfico-computacionais como meio ou fim, passou a estar ao dispor do artista digital um espaço incomensurável de possibilidades destinado à criação de uma obra de arte para ser exibida ou compartilhada em rede. 


Nunca tendo estado totalmente divorciados, a potencialização dos vínculos entre a ciência a tecnologia e a arte é agora uma evidência inequívoca e incontornável, formando uma trilogia simbiótica de largo espectro, perturbando e desorientando historiadores e críticos quando chamados a produzir escritos assertivos e confiáveis, sobre esta temática.

 

De um modo mais manifesto e abrangente, podemos deduzir que são consideradas obras de arte digital todas as manifestações de criação artística concebidas em ambiente gráfico computacional e obtidas através do uso de hardware e programas de software e sempre num espaço virtual. Simplificando, toda a prática artística que usa qualquer forma de tecnologia digital, quer no seu processo de criação ou no seu modo de apresentação, pode ser considerada arte digital.


Quando o alemão Wolf Lieser decidiu englobar neste género de arte todas as manifestações artísticas realizadas por um computador, tudo parecia demasiado simplicista e tornava-se claro que se começava a caminhar sobre um terreno movediço e buliçoso. O potencial e influência das tecnologias digitais nas várias linguagens de expressão artística e estética é significativo, no entanto, falta ainda fazer a análise irrefutável e apresentar estudos mais profundos para estabelecer critérios rigorosos com o fim de estabelecer fronteiras para definir que esta é uma obra de arte digital e aquela é um trabalho técnico/industrial de comunicação multimédia ou digitalidade de massas.

 

Um dos mais destacados pioneiros na área da computação gráfica, animação e arte digital foi o americano Charles Csuri1 que, já em 1964, decidiu transformar o computador numa ferramenta para os artistas. Pintor e, a partir de 1978, Professor na Universidade de Ohio, muito cedo ficou extasiado com o computador e as suas potencialidades como ferramenta para o desenvolvimento da arte digital, sendo um dos artistas mais reconhecidos e mais laureados nesta área. Grande parte do seu reconhecimento advém do seu empenho pesquisativo para introduzir figuração na linguagem da computação gráfica o que foi considerado um passo incentivador para o artista  marcar encontro com a arte digital.


Foi, em 1987, o fundador do Advanced Computing Center for the Arts and Design (Centro de Computação Avançada para as Artes e o Design) da Universidade de Ohio, destinado ao desenvolvimento da arte digital e da animação computacional. Charles Csuri foi, efectivamente, um distinto pioneiro na utilização do computador (computers & Graphics) para a criação de arte e animação e a sua obra veio acrescentar novas e brilhantes páginas ao livro da História da Arte


      The Charles A. Csuri Project at The Ohio University 1989



1 Charles A. Csuri Project | College of Arts and Ciences  

https://csuriproject.osu.edu/index.php/About/arthistor 

2 Charles Csuri: When I began working with the computer, I had to look closely at how it could be used within an artistic context.

3 – Charles A. Csuri Project | College of Arts and Ciences Advanced Computing Center for Arts and Design (ACCAD) 

https://accad.osu.edu/ 

 

Na aurora da arte digital, o artista alemão, Manfred Mohr,4 foi outro pioneiro que muito contribuiu para o seu desenvolvimento, realizando em 1971 uma exposição individual na ARC- Museu de Arte Moderna5 da cidade de Paris, que iria ficar na história como a primeira mostra de arte gerada num computador. Sendo considerado um destacado artista neste género de arte, diz-se, sublinhando o seu trabalho, que Manfred Mohr ensinou o computador a fazer arte. Ele próprio declarou: “A ideia de criar arte a partir de algoritmos é o ponto central do meu trabalho, onde uma lógica não visual irá criar uma obra visual.


                          Manfred Mohr  |  P-702/D 2000

    
O seu trabalho, resultante da procura de uma arte virtual habitada pela sua imaterialidade foi diversas vezes transferido para suportes físicos através de impressão digital ou produzido manualmente pelos métodos convencionais. Ele é fortemente geométrico, representando quadrados, rectângulos, cubos ou simples traços, chegando até nós em desenhos e pinturas minimalistas preenchidas de uma forte componente cromática

 

As décadas de 1960 . 1970 . 1980 foram tempos de pesquisa e experimentalismo, de erro e descoberta a caminho da afirmação da arte digital, encontrando-se a grande maioria dos artistas ainda alheada dos esforços levados a cabo por esses brilhantes pioneiros. Nos seus estúdios, eles debatiam-se com o conceptual, o minimalismo, a arte povera, o hiper-realismo, e o neo expressionismo, entre outros movimentos. As galerias e os museus obedeciam aos mercados  e a arte digital ainda estava no limbo, merecendo ainda muito pouco acolhimento.










  



4 Manfred Mohr | Celebrating my 50 Years of Artwork and Algorithms 1969 - 2019

http://www.emohr.com/

5 Manfred Mohr - Computer Graphics

"Une Esthétique Programmée"
ARC - Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
11.
May - 6. June 1971

http://www.emohr.com/paris-1971/index.html

 

O alemão, Wolf Lieser,6 um artista habitando a área da fotografia, já aqui citado, foi o grande promotor da arte digital e da sua história, através da sua bibliografia activa com a edição de diversos livros sobre a matéria e da criação, em 1998, do Digital Art Museum (DAM),7 o primeiro museu online. Foi também muito importante o seu papel na divulgação da arte digital e dos seus artistas com a fundação, em 2003, de uma Galeria física, (DAM Gallery), em Berlim e com a realização de simpósios sobre Media Art e Art Market, sublinhando, aqui, o realizado no Lentos Kunstmuseum em Linz, Austria, em 2016.

 


                                                The world of Digital Art  | autor Wolf Lieser | ISBN 9783833157608

 

Entre 2005 e 2012 foi, também, o agente fundador do prémio DDAA (D.Velop Digital Art Award)  em colaboração com a Kunsthalle de Bremen. Wolf Lieser definiu assim esta forma de expressão de criação artística: “Fazem parte da arte digital as obras artísticas que tendo por um lado uma linguagem visual especificamente mediática, revelam, por outro, as metacaraterístcas do meio.”  

Wolf Lieser considera ainda que: A arte digital ganhará maior aceitação no mercado de arte. Basicamente, ela virá a desempenhar um papel importante na arte do século XXI, porque está intimamente relacionada com nosso estilo de vida, como nos comunicamos e como organizamos as nossas vidas. Da mesma forma que a TV transformou dramaticamente o século XX, a arte digital definitivamente influenciará o século XXI.8  
Wolf Lieser foi, realmente, o arrebatado visionário e o persistente construtor dos alicerces necessários para que  a arte digital se encontre hoje situada num patamar de influência e  numa conjuntura de credibilidade perante o público e os mercados da arte.


6 Wolf Lieser Gallerist, Deutschland

http://netzspannung.org/cat/servlet/CatServlet?cmd=document&subCommand=show&forward=/biography/output/biography.xml&biographyId=260837&lang=de

7 DAM Digital Art Museum

https://dam.org/

8 Media Art e mercato dell’arte: intervista a Wolf Lieser

http://digicult.it/it/news/media-art-art-market-interview-wolf-lieser/

 

É importante sublinhar que a ciência e a tecnologia já, nos fins do século XIX, tinham produzido ferramentas importantes que acabariam por ser usadas para a concepção de linguagens criativas específicas e novas formas de olhar a estética na área da expressão artística. A fotografia e o cinema (sétima arte) são as mais relevantes e centram-se na técnica de criação de imagens fixas, a primeira e imagens em movimento, a segunda.

A primeira fixação de uma imagem numa superfície fotossensível aconteceu 1826, atribuída ao francês Joseph

 

                                           Primeira fotografia por Joseph Nicéphore Niépce em superfície fotossensível | 1816

 

 

Nicéphore Niépce.9 No entanto, foi quando o artista francês Louis Jacques Mandé Daguerre, pintor, cenógrafo e  pesquisador  apresentou, em 1939, o seu daguerreótipo na Academia de Ciências e Belas Artes de Paris que  a câmara fotográfica entrou num rápido processo evolutivo. 

Ao longo dos tempos, com o contributo de diversos cientistas, ela foi-se desenvolvendo chegando aos nossos dias provida de tecnologia digital e pronta para criar obras fotográficas de valor estético e artístico elevado sendo, muitas delas, trabalhadas em programas de software específicos. 

A fotografia, como manifestação de arte digital, ocupa hoje um lugar de relevo nos espaços expositivos de prestígio.       

 

 9 1816-1818 — Niépce’s first Experiments

https://www.dw.com/pt-br/1816-primeira-fotografia/a-515945

Os novos meios de produção artística, primeiro a fotografia (1826, J.N. Niépce) depois o cinema (1895, Auguste e Louis Lumière) e principalmente com o advento da videoarte (1963, Wolf Vostell)11 o computador pessoal (personal computer IBM 1975),12 a internet (1974) e as ferramentas hardware e software, derrubaram as técnicas tradicionais e os métodos ortodoxos e academicistas e ofereceram ao artista novos conhecimentos, novas e inúmeras práticas inventivas e novos e amplos espaços para o exercício criativo, onde a arte digital acabaria, finalmente, por se impor num mundo já saturado de ideias/conceitos (a arte conceptual), de instalações aleatórias e dispensáveis e de inúmeras construções gigantescas, fortuitas e efémeras, tudo fazendo parte da chamada arte do nosso tempo.

 

11 Wikiwand  

https://www.wikiwand.com/pt/Wolf_Vostell

12 The complete history of the IBM PC, part one: The deal of the century

https://arstechnica.com/gadgets/2017/06/ibm-pc-history-part-1/

 

A Media Art que abarca obras de arte criadas através do uso de um componente tecnológico, neste caso o computador, aborda diversas disciplinas, como web art, video art, multimedia art, digital art e outras que, embora existindo uma inter-relação, elas possuem as suas especificidades tanto no seu modus faciendi como na sua componente visual e estética, estando todas situadas no contexto das manifestações  da arte contemporânea.

A arte digital, no momento da sua produção, dimana de um conceito germinado na mente do seu autor com a intenção única da criação de uma obra de arte, usando as ferramentas já mencionadas, sendo trabalhada e exibida em ambiente virtual. Considerando que a arte digital se desenvolve, na sua génese, a partir de uma ideia-imagem produzida na mente do seu criador, tal como acontece nas outras linguagens tradicionais de expressão artística, ela, nada mudando conceptualmente, pouco mudando na sua idealização formal, compositiva e estética, irá modificar-se profundamente na sua componente laborativa, física e exibitiva.

Com efeito, a arte digital caracteriza-se pela sua laboração num espaço computacional com acesso à internet, através das ferramentas disponíveis e qualifica-se pela sua imaterialidade e pela sua exibição em ambientes virtuais ou em rede, como já referenciamos. Consideramos ainda outras características que a diferenciam das convencionais artes plásticas: a sua ubiquidade, efemeridade e falta de unicidade.

 

 

                                                                                 DAPH | digital art | 2013 | Pintomeira

 

 

Academia.adu | Pintomeira

https://independent.academia.edu/ArlindoPintomeira

Pintomeira | artes plásticas e arte digital

https://contact5f39.myportfolio.com/projects

 

Possuindo um longo percurso na criação artística, mais acentuadamente, na área das artes plásticas, sendo a pintura a mais trabalhada, sei concluir que esta, existindo expressa na matéria física, não pode ser comparada com a arte digital devido à falta de materialidade e fisicalidade desta e à sua existência em ambiente virtual

Embora sabendo que, na sua feitura, a   arte digital incorpora ciência, tecnologia e virtualização, sei também que o seu processo criativo, quer na sua abordagem conceptual ou na sua relação com o pathos ou com o emotivo, não depende do suporte, das ferramentas, ou das técnicas utilizadas. No entanto as ideias românticas e as surpresas emocionais dos artistas do século XIX não compartilham este espaço, agora  habitado por computadores, algoritmos, digitalidade, software e racionalidade, tudo isto colocado na mesa da criação artística.


Os meus trabalhos artísticos produzidos no âmbito da arte digital, através das ferramentas próprias de um programa computacional e partilhados em rede, são uma expressão de

 


 
                                                                                 Desencontro DAPH | digital art | 2013 | Pintomeira

 

actividade intelectual tal qual as outras obras por mim criadas nas diversas linguagens das artes plásticas e sendo ambas colocadas no contexto multidimensional e plurifacetado da arte contemporânea.

Ao decidir utilizar as ferramentas tecnológicas ao dispor no meu computador através da computação gráfica, eu passei a habitar um ambiente digital da criação artística, entrando em ruptura com a convencional representação imagética sobre uma estrutura física.

No entanto, a sua génese, a sua concepção, a ideia primeira de uma obra de arte digital transporta consigo o mesmo ADN que a concepção de uma obra de arte produzida com estruturas e ferramentas físicas. Ambas pariram do mesmo útero mental do seu autor, fecundadas pela sua capacidade imagética e sensibilidade estética. 

 

A arte digital é global, navega sem algemas e não traz na coleira os rótulos e os clichés da arte clássica, moderna ou contemporânea, não é domada pelo poder hegemónico dos mercados da arte e não se deixa impressionar pelo discurso nada dizente de alguns críticos e curadores.

A arte digital, descoberta acidentalmente pelo cientista, pelo matemático, e abraçada com entusiasmo por alguns artistas pioneiros a partir da década de 1960, atingiu já a sua assumpção plena no mundo da arte contemporânea.

A semente lançada pelo cientista em terreno computacional, no início da década de 1960,  germinou, cresceu e fez-se árvore com ramificações diferenciadas. Desde muito cedo, o artista decidiu colher os seus frutos e com eles produzir manifestações artísticas que fazem hoje parte da New Media Art. Esta comporta diferentes  formas de  arte digital que acabaram por se impor numa coabitação híbrida onde se encontram  abrigadas num contexto virtual ou mesmo físico, a  pintura, instalações interactivas, vídeoarte e outras.

A arte digital atravessou um mundo de rápidas transformações tecnológicas e, adaptando-se e  tirando proveito delas, hoje, confirmando a visão de Wolf Lieser, ela tem o seu público, impôs-se no mundo das galerias e museus de prestígio e alcançou os mercados da arte.

Este texto não segue o novo acordo ortográfico

 

Pintomeira 2020 

Artista Plástico | Ensaísta

 

Ensaio  publicado em https://independent.academia.edu/ArlindoPintomeira


Datas importantes na evolução da arte digital

1960 . Surgimento do termo Computação Gráfica

1963 . Primeira obra de arte gerada por um computador | “Colibri” de          Charles Csuri | computer-animated film.

1965 . Primeira Exposição de arte digital “Computerfrafik” de Geor Nees em Stuttgart  https://www.heikewerner.com/nees_en.html

1968 . Cybernetic Serendipty | Exposição: computadores e arte no Instituto de Arte Contemporâneo em Londres, UK

https://monoskop.org/Cybernetic_Serendipity

1971 . 1ª Exposição individual de Arte Digital de Manfred Mohr no NAM de Paris, França

http://lounge.obviousmag.org/zoom_nas_visceras/2015/07/a-estetica-programada-de-manfred-mohr.html por João da Rocha em Obvious

1979 . 1ª Conferência sobre arte e electrónica por Manfred Mohr, em Linz, Austria

1988 . Computador e arte digital | Exposição na Galeria Cleveland, Middlesborough, UK.

1994 . 1ª edição do Festival de Arte Electrónica, Países Baixos

1995 . O artista esloveno anuncia o termo Net Art

1998 . Criação do Digital Art Museum | Virtual Museum, por Wolfgang Lieser, Berlim, Alemanha

2001 . O termo Software Art surge no Festival Transmediale, Berlim, Alemanha

2003 . Simpósio sobre arte digital e cultura, MOMA, New York, USA

2005 . Criação do prémio ARTE DIGITAL (DDAA), Berlim, Alemanha