16.10.20

 

Mário Miranda, o Escultor . Pintor

 


Mário Miranda

É muito provável que Mário Miranda, durante os seus tempos de berço, tenha tido a percepção dos cheiros dos óleos e da terebentina, uma vez que seu pai foi um conhecido pintor e um reputado restaurador de arte sacra. A sua apreensão das artes visuais foi precoce e a visão de um cavalete, um amontoado de tubos de óleo, pigmentos, pinceis e uma tela, nunca lhe pareceu uma miragem. Estando já familiarizado com todos esses materiais e transportando dentre de si o ADN da criatividade, só lhe faltava fazer o caminho, caminhando até ao encontro do seu atelier e iniciar os seus diálogos solitários com a tela.

Tendo feito a sua formação nesta área e já com algumas exposições no seu currículo, Mário Miranda decide percorrer e fazer mundo de experiências, de visitas e encontros com a arte, enriquecendo e amadurecendo o seu inato talento, carregando sempre, no alforge da sua mente, todos os materiais necessários para a feitura da sua obra prima.

Numa dessas viagens, Mário Miranda tomou a estrada do Norte e estacionou em Amesterdão, capital da Holanda. Eu já lá estava e o encontro era inevitável. Encontrei-o, em 1973, no seu atelier situado no edifício Kroombslot, próximo do Nieuwemarkt. Calmamente, ele debatia-se com uma tela colocada em cavalete, elaborando a figura, a forma e traços envolventes, em tons quentes e numa técnica sfumato ou mesmo chiaroscuro. A obra, muito trabalhada, ia nascendo através do uso de transparências e glacis. 

 

Amesterdão 1973 | Mário Miranda no atelier de Pintomeira tendo, à esquerda, a sua obra


Sempre muito introspectivo, profundamente enfeitiçado e capturado pelo que ia acontecendo na tela, numa labuta de pára e arranca de pinceladas abrangentes, a sua obra surgia aprazível na sua expressão estética e apropriava-se do seu próprio espaço.
Nessa sua primeira passagem por Amesterdão, na década de 1970, Mário Miranda fez, ainda parte do grupo “surreal maneirista”, de curta duração, apoiado num surrealismo tardio com as suas “maniere” pessoalizadas e que decidiu casar-se com o já secular maneirismo pós-renascença. O referido grupo, ao qual também pertenci e fui seu teorizador, reuniu jovens artistas imbuídos de um idealismo utópico, embora abraçando, convictamente, uma pintura figurativa, surrealizada e maneirista, com o propósito de se afastar e denunciar a fraudulenta e fingida arte conceptual que preponderava naquele tempo.

Na década de 1980, o autor regressa a Portugal. Desta vez, ele tomou a estrada do Sul e escolheu o Algarve para dar continuidade à sua obra. Aquela terra quente e luminosa poderia levá-lo a momentos de uma inspiração mais luzidia, revelando obras de forte e vibrante cromatismo, como aconteceu com Vincent Van Gogh, quando deixou Paris e partiu para Arles e Saint Remy, no sul da França.

Nada disso se verificou. Nas suas viagens pelo Alentejo, Mário Miranda encontrou o mármore nas minas de Estremoz, visitou o atelier do escultor João Cutileiro e regressou ao Algarve, já com uma nova linguagem plástica na sua mente. Encantado com aquela pedra de Estremoz, ele iria abandonar a pintura, tal como Michelangelo Buonarroti que, enfurecendo o papa Júlio II, abandonou, em certo momento, os trabalhos na Capela Sistina e partiu para onde gostava de estar, as minas de mármore em Carrara. Ao contrário de Michelangelo, Mário Miranda não conseguiu conciliar a pintura com a escultura.

 

Mário Miranda no seu Atelier


Esta última linguagem de expressão artística capturou-o, definitivamente, e a pedra mármore rendeu-se ao seu talento e entregou-se às suas mãos para se deixar esculpir.

O seu atelier, num Algarve cheio de luz, preparou-se para receber blocos de pedra vindos das minas alentejanas que, a partir da técnica da cinzelagem, iriam ser transformados, primeiro em peças planas de pequena dimensão com uma figuração de alto e baixo relevo, progredindo para trabalhos de tamanho médio caracterizados pela junção de pequenos blocos elaborados e de tons diferenciados, rumando mais tarde para obras monumentais e para a realização de esculturas públicas destinadas à requalificação e embelezamento de espaços urbanos. 

 

      Celeiro do Algarve | mármore e aço . 2003

Em Vila do Bispo, podem ser vistas algumas dessas esculturas monumentais encomendadas pela Câmara Municipal, destacando-se “O Homem do Mar” 1999, “O Celeiro do Algarve” de 2003 e “A Phoenix” de 2009.

Ao trocar as tintas, os pigmentos, os pincéis e as telas, pelo cinzel e o escopro, as máquinas de corte, perfuração e polimento, Mário Miranda passou a habitar espaços mais abertos e de distantes horizontes, mais ruidosos e empoeirados, num labor mais físico, desbastando a pedra bruta numa técnica de cinzelagem para criar uma forma tridimensional, um volume no espaço com valor estético na sua expressão plástica. As suas mãos pesadas e quase rudes acariciavam, agora, o mármore, a pedra e o aço, com sensibilidade e energia como antes usava o pincel e as tintas para preencher uma tela branca sedenta das suas visões e da sua imagética.

Mário Miranda, artista inovador e experimentalista, passou a construir, desde há algum tempo, uma escultura assemblage, de grandes dimensões. Acumula no seu atelier materiais diferenciados que, na execução do trabalho, os vai ordenando, incorporando, agregando até alcançar uma estrutura/escultura admirável e chamativa na sua forma estética e saída do seu imensurável imaginário.

Estas peças, embora monumentais transmitem, na sua estrutura, uma leveza e transparência que contrasta com as sólidas e corpulentas esculturas encomendadas para projectos de embelezamento urbano.

 

A Fiandeira . 2019 
 
Entre outras, destacamos a Fiandeira de 2019. Para a sua feitura o escultor reuniu no seu atelier peças, fragmentos e pedaços de reciclagem de diversos materiais, alguns encontrados no lixo e, desde a sua base até ao topo, os foi agregando, numa construção em espiral e num conceito mais racionalizado. Esta excelente obra parece homenagear a antiga fiandeira uma vez que o escultor lhe coloca uma coroa no seu topo como símbolo de glorificação pelo seu labor paciente, aturado e moroso, tal como Penélope, rainha de Ítaca, tecendo durante muitos anos a mesma peça, afastando assim outros pretendentes e esperando o seu Ulisses que iria regressar da Guerra de Troia, uma década após ter partido.

Afirmamos acima que Mário Miranda não conseguiu conciliar a pintura com a escultura. Tal facto aconteceu no início da década de 1980, quando se deixou seduzir pela pedra mármore de Estremoz e, abraçando a escultura, deixou para trás a pintura, linguagem plástica que abraçara até então.

No entanto, nos últimos anos o escultor regressou à pintura, naturalmente, sem espanto e sem receios já que, os cheiros dos óleos e da terebentina entranhados durante a infância, nunca se dissiparam da sua memória olfactiva.

Com o seu já declarado experimentalismo, Mário Miranda reencontrou a tela numa abordagem a que ele próprio denomina de expressionismo gestual.

Utilizando pigmentos naturais em base de acrílico, o artista consegue efeitos notáveis e únicos, transportando-nos para visões de antigos frescos, deteriorados pelo tempo. As transparências e a técnica glacis aparecem aqui mais relevadas, oferecendo-nos efeitos de alta qualidade, evidenciando um figurativo desbotado, por vezes indecifrável. 

 

Residencial Flamengo . 2017


Há uma negação das cores primárias, complementares ou frias, optando por tints e matizes em gradações da mesma cor, formando um cromatismo deslavado com valor técnico elevado e uma percepção visual aprazível.

Mário Miranda, o Escultor . Pintor, fazendo parte de um grupo de notáveis artistas não alinhados, alcançou uma obra conceituada e prestigiada que faz parte de inúmeras colecções públicas e privadas, com forte relevo para a escultura erigida em espaços urbanos ou inserida na natureza. Estas obras fazem hoje parte do desenvolvimento artístico da comunidade e do património cultural colectivo, convivendo com o indivíduo/cidadão e mantendo com ele um diálogo através dos tempos, para além do, não menos importante, embelezamento do espaço público urbano ou harmoniosamente integradas na natureza.

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico

Pintomeira 2020 

Artista Plástico | Ensaísta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16.9.20

 


Santuário de Nossa Senhora do Crasto

Deocriste - Viana do Castelo

 

 

Origem da sua Capela

 

 

No roteiro arqueológico da Câmara Municipal de Viana do Castelo, aparece assinalada a existência de um Castro, da fase tardia da Idade do Ferro, na freguesia de Deocriste. Tomando esta informação como factual ou provável, e estando os Castros, quase sempre, situados no topo de montes e junto a cursos de água, posso deduzir que ele, se realmente existiu, estaria situado no Monte Crasto. Depreende-se que a designação de Crasto tenha tido origem em Castro (latim: Castrum, Castri), por adulteração popular, ao longo dos tempos, (metátese: alteração na estrutura de uma palavra, pela troca de posição entre fonemas ou sílabas).

Sendo assim, é razoável concluir que o nome de Crasto, dado à Virgem Maria venerada na Capela ali existente, tenha derivado do nome do Monte. Há, sem dúvida, casos semelhantes: Nossa Senhora do Sameiro no Monte Sameiro; Nossa Senhora da Penha, no Monte da Penha, Nossa Senhora da Franqueira no Monte Franqueira e outros.

Após esta resenha introdutória, passarei agora a uma explanação sumária sobre a origem da Capela de Nossa Senhora do Crasto, servindo-me de alguns documentos, já centenários, do Arquivo Distrital de Braga, de sínteses de relatos da memória colectiva, narrativas e outros registos.

Conforme manifesto no Arquivo Distrital de Braga, um tombo da igreja de São Mamede de Deocriste, do século XVI (1556), que descreve um inventário dos seus bens de raiz com todas as confrontações e demarcações, já assinala a existência, dentro dos limites da freguesia, de uma pequena Ermida dedicada à devoção a Nossa Senhora do Crasto. O mesmo tombo refere, ainda, a necessidade de pedir esmola para a sua manutenção, uma vez que se trata de uma Ermida de muita devoção. Confirmado este dado factual, é legítimo concluir que a Capela hoje existente e a devoção a Virgem Maria nela venerada, já remontam, a cerca, de quinhentos anos.

Também, no Arquivo Distrital de Braga, pode encontrar-se um registo de obrigação a fábrica da Capela de Nossa Senhora do Crasto, de 1656, e ainda um registo de provisão, datado de 1719, a favor de Manuel Soares para que seja Ermitão na mesma Capela, situada na freguesia de São Mamede de Deocriste. Pode, assim, concluir-se que o culto Mariano, naquele local, é secular e ter-se-à mantido, ininterrupto, até aos nossos dias.

A concepção iconográfica de Nossa Senhora do Crasto foi inspirada na clássica e tradicional imagem da Madona, representando a Virgem Maria e o Menino. A imagem está assente numa base rodeada de anjos ou putti e coberta por um manto azul e, amparando o Menino no seu braço esquerdo tem, na sua cabeça, a coroa real1.


Não havendo imagens da Ermida, primeira e original, é, no entanto, lícito afirmar que ela não tinha a configuração arquitectónica que a Capela hoje apresenta. Ela encontra-se situada num pequeno planalto que me parece ser artificial, considerando toda a orografia do terreno envolvente. Através dos tempos, foi sendo sempre necessário terraplanar mais terreno, para melhor acomodar uma Capela que foi crescendo, anexos que ali iam sendo construídos e cruzeiros ali erigidos. O sentido da sua construção é tradicional, estando o seu altar mor orientado para nascente e, consequentemente, a sua fachada para poente, com a intenção de uma celebração litúrgica ad orientem (para oriente).2

Para analisar e tecer considerandos sobre a actual configuração arquitectónica da Capela de Nossa Senhora do Crasto e a sua reedificação, irei recorrer a relatos verbais da memória colectiva que, embora não estando certo se eles existem escritos ou recolhidos em registos físicos, não deixam de ser credíveis uma vez ter sido verificada a seriedade e honradez dos narradores. Segundo verbalmente relatado, elementos da família Meira, residentes na que é hoje chamada Casa da Colunata, situada na Estrada de Santiago nr. 2593, em Deocriste, emigraram para o Brasil, na primeira metade do século XVIII, auge da exploração do ouro. Num dos seus regressos a Portugal e chegados ao porto de Viana do Castelo, tendo avistado o Monte Crasto da sua terra natal e a sua pequena Ermida, prometeram, em agradecimento divino pela boa viagem feita e pelo sucesso tido em terras de Santa Cruz, construir uma nova Capela, no mesmo local da antiga e já deteriorada Ermida. Com prováveis remodelações, através dos tempos, na sua aparência interior e exterior, essa Capela teria aproximadamente o mesmo corpo arquitectónico da que hoje se encontra no alto do Monte Crasto.

Testemunhando a sua devoção, a referida família Meira mandou, também, construir na sua casa de residência, hoje Casa da Colunata, uma pequena Capela familiar dedicada, igualmente, ao culto de veneração a Nossa Senhora do Crasto. Essa secular capela, onde já foi celebrada missa, ainda hoje existe, tendo, no retábulo do seu altar, a imagem de Nossa Senhora do Crasto.


Uma pequena e secular imagem de Nossa Senhora do Crasto, a mais antiga hoje existente, encontra-se na casa da família Meira, de quem é pertença. Essa imagem é, todos os anos e desde tempos imemoriais, levada para a Capela Santuário,3 no dia das festividades em sua honra. É a essa vetusta imagem do século XVIII que, desde sempre, os fiéis prestam veneração, agradecem milagres, suplicam ajuda e deixam esmola. Após as festividades, ela é trazida, de novo, para a casa da referida família. Uma tradição secular, nunca abolida e sempre cumprida, através dos tempos, e que confirma a profunda e ancestral ligação da família Meira àquela Capela.


Em Março de 2009, e confirmando, uma vez mais, essa mesma ligação, a família Meira efectivou a doação do seu terreno contíguo ao adro, chamado Cerca, à Confraria de Nossa Senhora do Crasto.  Esse terreno é hoje um aprazível parque de merendas e lazer para os visitantes do Santuário.

Também, impelido pela sua íntima dedicação àquela Capela mandada reedificar pelos seus antepassados, o Sr. José Alves Meira da Rocha, então, administrador dessa mesma Capela e seus anexos e presidente da Junta da Freguesia de Deocriste, decidiu, em meados da década de 1960, mandar construir a primeira estrada para trânsito automóvel, ligando a EN 305, desde o lugar do Outeiro, até ao recinto do Santuário.
Na construção da dita estrada, foram muito relevantes a generosidade e o trabalho prestado, gratuitamente, por muitos deocristenses, uma vez que os dinheiros municipais eram diminutos. Movidos pela fé e culto à sua santa devota, não foi difícil mobilizar as vontades das gentes generosas de Deocriste, alguns cedendo parte dos seus terrenos e outros trabalhando arduamente na  construção de uma estrada de paralelepípedo que os levaria até ao altar de Nossa Senhora do Crasto que, do alto do monte, sempre  vela por eles.


Desde os tempos longínquos quando o Ermitão cuidava e guardava a Ermida, quando o Fabriqueiro a administrava e a tutelava, até aos tempos de hoje em que uma Confraria muito bem a zela e embeleza, a freguesia de São Mamede de Deocriste pode sentir-se orgulhosa e honrada por ter, no alto do seu monte, uma linda Capela onde Nossa Senhora do Crasto parece, incessantemente, vigiar sobre a sua encosta, o seu vale e proteger as suas gentes.     

 

1 – Em 1646, D. João IV ofereceu a sua coroa real a Nossa Senhora da Conceição, sendo proclamada Rainha e Padroeira de Portugal. Desde então, os reis portugueses nunca mais usaram coroa e passou a existir a aclamação e não a coroação. Foi, a partir daí, que a imagem de Nossa Senhora, Virgem Maria, passou a apresentar uma coroa na sua cabeça.

2 -  Ad orientem: no passado, o celebrante do acto litúrgico e os fiéis estavam voltados para oriente, para Jerusalém, para o nascer do sol. Actualmente, a prática litúrgica é exercida versus populum, onde o celebrante está de frente para os fiéis.

3 – Na igreja católica, é considerado Santuário um local de fé, para onde acorrem devotos de diversos locais e onde existe um objecto simbólico usado no culto religioso, neste caso concreto, a imagem de Nossa Senhora do Crasto.

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico.

 

Arlindo Pintomeira

Artista Plástico | Ensaísta

 

 

14.9.20

Indice



. Braga | Cutouts II 2019
. Braga | Moving Figures 2018
. Braga | Faces Renascimento 
  2016 | 2017
. Braga | Novas Faces  2015
. Braga | Cutouts 2016 
. Braga | Digital Art  2014
. Braga | Exteriores 2012 
. Braga | Interiores 2008 | 2010
. Braga | Outras  Faces 2011
. Deocriste | Faces 2005 -
. Deocriste | Nova Linha 1999  
. Amesterdão | Contornos 1994 | 
  1999
. Amesterdão |  Paisagem 1987
. Amesterdão | Surrealismo1970
  - 1978 
. Amesterdão.Braga | Fotografia
  1977 -  
. Lisboa | Surrealismo 1967 | 
 1971
. Amesterdão | Surrealismo 1972
  1978
. Viana | Desenho 1965 | 1966
. Percurso artístico | 50 anos 
. Síntese de um percurso 
. Biografia
. Braga | Autopsiar a bexiga  da
  arte moribunda (ensaio) 2018 
. Galerias de Arte e Arte      Dealears (ensaio) 2020   

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