19.1.20

 


 

                                    Santuário de Nossa Senhora do Crasto                                                

   Origem da sua Capela

  

 

 Pintomeira 

 Artista Plástico | Ensaísta

 

 

A encosta poente, soalheira e verde do Monte Crasto, acomoda grande parte do aglomerado habitacional da freguesia de Deocriste, no concelho de Viana do Castelo. Este anfiteatro natural, embelezado por airosas habitações que se estendem de norte a sul (entre a freguesia de Deão e a freguesia de Portela Susã) tem, no seu ponto mais elevado, a capela de Nossa Senhora do Crasto.

Inserido num local privilegiado, este Santuário1 Mariano oferece-nos uma panorâmica deslumbrante, de distante e amplo horizonte e de uma notável amplitude, expondo uma vista ímpar sobre todo o vale, veigas e vinhedos de Deocriste, sobre uma abrangente porção do rio Lima até à sua foz em Viana do Castelo e, ainda, sobre uma extensa área do Oceano Atlântico.

 

Vista Panorâmica . Santuário de Nossa Senhora do Crasto


Para além de um local de devoção e culto religioso, acolhendo piedosos romeiros e peregrinos, o Santuário é hoje, também, um aprazível espaço de lazer e turismo. A festividade em honra de Nossa Senhora do Crasto é realizada, anualmente, no domingo seguinte ao da Páscoa.


Após esta resenha introdutória, passarei a uma explanação sumária sobre a origem e evolução da Capela de Nossa Senhora do Crasto, servindo-me de alguns documentos, já centenários, extraídos do Arquivo Distrital de Braga, de sínteses de relatos sustentados e corroborados pela memória coletiva e outros registos oficiais aqui documentados.

Descartarei narrativas ficcionais e duvidosas, assim como mitos e lendas muitas vezes propaladas na comunidade.

 

No roteiro arqueológico2 da Câmara Municipal de Viana do Castelo aparece assinalada, na freguesia de Deocriste, a existência de um  Castro3 da fase tardia da Idade do Ferro.

Tomando esta informação como factual e estando os Castros, quase sempre, situados no topo de montes e junto a cursos de água, posso deduzir que ele, se realmente existiu, estaria situado no Monte Crasto. Depreende-se que a designação de Crasto tenha tido origem em Castro (latim: Castrum, Castri), por adulteração popular, ao longo dos tempos, (metátese: alteração na estrutura de uma palavra, pela troca de posição entre fonemas ou sílabas).

Sendo assim, é justificável concluir que o nome de Crasto dado à Virgem Maria venerada na Capela ali existente, tenha derivado do nome atribuído ao  Monte. Há, sem dúvida, casos semelhantes: Nossa Senhora do Sameiro no Monte Sameiro; Nossa Senhora da Penha, no Monte da Penha, Nossa Senhora do Pilar no Monte do Pilar, Nossa Senhora da Peneda, na Serra da Peneda e outros.

 

Conforme manifesto no Arquivo Distrital de Braga, um tombo da igreja de São Mamede de Deocriste, do século XVI (1556), que descreve um inventário dos seus bens de raiz com todas as confrontações e demarcações, já assinala a existência, dentro dos limites da freguesia, de uma pequena Ermida dedicada à devoção a Nossa Senhora do Crasto. O mesmo tombo refere, ainda, a necessidade de pedir esmola para a sua manutenção, uma vez que se tratava de uma Ermida de muito culto e devoção, onde afluíam inúmeros peregrinos e romeiros.

Confirmado este registo factual, é legítimo concluir que a Capela hoje existente e a devoção à Virgem Maria nela venerada, já remontam a cerca de quinhentos anos.

Também, no Arquivo Distrital de Braga, pode encontrar-se um registo de 1656 que determina a  obrigação a fábrica da Capela de Nossa Senhora do Crasto e ainda um registo de provisão, datado de 1719, a favor de Manuel Soares para que seja nomeado Ermitão da mesma Capela, situada na freguesia de São Mamede de Deocriste. Pode, assim, concluir-se que o culto Mariano, naquele local, é secular e ter-se-à mantido, ininterrupto, até aos nossos dias.

 

A conceção iconográfica de Nossa Senhora do Crasto foi inspirada na clássica e tradicional imagem da Madona gótica ou renascentista, representando a Virgem Maria e o Menino. A imagem está assente numa base rodeada de anjos ou putti e coberta por um manto azul e, amparando o Menino no seu braço esquerdo tem, na sua cabeça, a coroa real.4

 


O título mariano de Nossa Senhora do Crasto terá tido a sua origem na devoção popular uma vez que nunca foi comprovada a existência, no local, de qualquer aparição ou manifestação da Virgem Maria e é manifesto que também nunca teve como sustentação a proclamação de qualquer dogma mariano.5

 

Não havendo imagens da Ermida primeira e original é, no entanto, legítimo afirmar que ela não tinha a configuração arquitetónica que a Capela hoje apresenta. Ela encontra-se situada num pequeno planalto que me parece ser artificial, considerando toda a orografia do terreno envolvente. Através dos tempos, foi sendo sempre necessário terraplanar mais terreno para melhor acomodar uma Capela que foi crescendo, anexos que ali iam sendo construídos e cruzeiros ali erigidos. 

Tal como a Igreja Paroquial de Deocriste, o sentido da sua construção é tradicional, estando o seu altar mor orientado para nascente e, consequentemente, a sua fachada para poente, com a intenção de uma celebração litúrgica ad orientem (para oriente).6

 

Para analisar e tecer considerandos sobre a atual configuração arquitetónica da Capela de Nossa Senhora do Crasto e a sua reedificação, irei recorrer a relatos verbais da memória coletiva que, embora não estando certo se eles existem escritos ou recolhidos em registos físicos, não deixam de ser credíveis uma vez ter sido verificada a seriedade e honradez dos narradores, através dos tempos.


Segundo verbalmente referido por diversos narradores do presente e do passado, elementos da família Meira, então residentes na que é hoje chamada Casa da Colunata, situada na Estrada de Santiago, N.º 2593, em Deocriste, emigraram para o Brasil, na primeira metade do século XVIII, auge da exploração do ouro. Num dos seus regressos a Portugal e chegados ao porto de Viana do Castelo, ao avistarem o Monte Crasto da sua terra natal e a sua pequena Ermida, prometeram, em agradecimento a Nossa Senhora do Crasto pela boa viagem feita e pelo sucesso tido em terras de Santa Cruz, construir uma nova Capela, no mesmo local da antiga e deteriorada Ermida. Com presumíveis remodelações, através dos tempos, na sua aparência interior e exterior, a Capela teria aproximadamente o mesmo corpo arquitetónico da que hoje se encontra no alto do Monte Crasto.

Durante, aproximadamente, dois séculos, os descendentes da família acima referida, ficaram sempre ligados e dedicados, de uma maneira profunda e religiosa, à Capela e à Virgem Maria nela venerada. Até à criação de uma confraria, na década de 1970, eles foram os seus administradores, fabriqueiros, e cuidadores.

 

Testemunhando a sua devoção, a referida família Meira mandou, também, construir na sua casa de residência, hoje Casa da Colunata, uma pequena Capela familiar dedicada, igualmente, ao culto de veneração a Nossa Senhora do Crasto. Esta secular capela onde, nos tempos idos, era celebrada missa, ainda hoje existe, tendo, no retábulo do seu altar, a imagem de Nossa Senhora do Crasto. 

 


Uma pequena e secular imagem de Nossa Senhora do Crasto, a mais antiga hoje existente, encontra-se na casa da família Meira, de quem é pertença. Essa imagem é, todos os anos e desde tempos imemoriais, levada para a Capela do Santuário no dia das festividades em sua honra. É a essa vetusta imagem do século XVIII que, desde sempre, os fiéis prestam veneração, agradecem milagres, suplicam ajuda e deixam esmola.

Após as festividades, ela é trazida, de novo, para a casa da referida família. Uma tradição secular, nunca abolida e sempre cumprida, através dos tempos, e que confirma a profunda e ancestral ligação da família Meira àquela Capela.

 


Em 21 de Dezembro de 1949, confirmando a sua devota ligação a Nossa Senhora do Crasto e sendo administradora do seu Santuário, Rosa Meira Dias Torres, Senhora e Dona da casa e quinta, hoje chamada Casa da Colunata, mandou exarar o seu testamento, no qual fez o seguinte legado "... lego e deixo à Confraria do Santíssimo Sacramento, desta freguesia, o seguinte: Terreno de lavradio, pinheiros e oliveiras no sítio de Entre-Quintas e outros terrenos, para com o seu rendimento zelar pelo Altar-Mor e mandar celebrar duas missas, por ano, na Capela de Nossa Senhora do Crasto, no dia anterior ou seguinte ao da sua festa, pela sua alma e de todos os seus familiares e dar esmola aos mais necessitados, conforme o uso e costume. Dar, também, cem escudos por ano à pessoa que encarregar de zelar pelo Altar-Mor da mesma Capela." (anexado documento comprovativo)7

 

Em meados da década de 1960, o Sr. José Alves Meira da Rocha, sobrinho da Senhora Rosa Meira Dias Torres, acima referida, impelido pela sua íntima dedicação àquela Capela mandada reedificar pelos seus antepassados, e sendo seu administrador e presidente da Junta da Freguesia de Deocriste, decidiu mandar construir a primeira estrada para trânsito automóvel, ligando a EN 305, desde o lugar do Outeiro, até ao recinto do Santuário.

Na construção da dita estrada, foram muito relevantes a generosidade e o trabalho prestado, gratuitamente, por muitos deucristenses, uma vez que os dinheiros municipais eram diminutos. Movidos pela fé e culto à sua Santa devota, não foi difícil mobilizar as vontades das gentes generosas de Deocriste, alguns cedendo parte dos seus terrenos e outros trabalhando arduamente na  construção de uma estrada de paralelepípedo que os levaria até ao altar de Nossa Senhora do Crasto e que, do alto do monte, sempre,  por eles vela.

 


Em Março de 2009, e confirmando, uma vez mais, essa mesma ligação, a família Meira formalizou a doação do seu terreno contíguo ao adro, chamado Cerca, a favor da Confraria de Nossa Senhora do Crasto.  Esse terreno é hoje um aprazível parque de merendas e lazer para os visitantes do Santuário. (anexado documento comprovativo)8

Desde os tempos longínquos quando o Ermitão cuidava e guardava a Ermida, quando o Fabriqueiro a administrava e a tutelava, até aos tempos de hoje em que uma Confraria muito bem a zela e embeleza, a freguesia de São Mamede de Deocriste pode sentir-se orgulhosa e honrada por ter, no alto do seu monte, uma linda Capela onde Nossa Senhora do Crasto parece, incessantemente, vigiar sobre a sua encosta, o seu vale e proteger as suas gentes. 

 

 Arlindo Pintomeira

Artista Plástico | Ensaísta

www.pintomeiragallery.com

http://pintomeira.blogspot.com

 

1 – Na igreja católica, é considerado Santuário um local de fé, para onde acorrem devotos de diversos locais e onde existe um objeto simbólico usado no culto religioso, neste caso concreto, a imagem de Nossa Senhora do Crasto.

 

2 - http://www.cm-viana-castelo.pt/pt/roteiro-arqueologico

     Mapa Sítios Arqueológicos (04-12-2012) 



3 - Povoações  da idade do cobre e da idade do ferro constituídas por habitações circulares situadas no cimo dos montes e muito características  do noroeste da Península Ibérica e partes da Europa.

 

4 – Em 1646, D. João IV ofereceu a sua coroa real a Nossa Senhora da Conceição, sendo proclamada Rainha e Padroeira de Portugal. Desde então, os reis portugueses nunca mais usaram coroa e passou a existir a aclamação e não a coroação. Foi, a partir daí, que a imagem de Nossa Senhora, Virgem Maria, passou a apresentar uma coroa na sua cabeça.

 

5 - Os dogmas sobre Maria são verdades de fé declaradas por um Concílio ou por um Papa. São 4 essas verdades sagradas.

a - Maternidade divina: declarado no Concílio de Éfeso, em 431, onde a Igreja lhe outorgou o título de Mãe de Deus (Theotokos) .

b - Virgindade Perpétua: declarado no segundo Concílio de Constantinopola, em 553.

c - Imaculada Conceição: proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854, sustentando que Maria nasceu sem o pecado original.

d- Assunção de Maria: declarado pelo Papa Pio XII, em 1950, reafirmando que Maria subiu ao céu em corpo e alma, após a sua morte.


6 - Ad orientem: no passado, o celebrante do acto litúrgico e os fiéis estavam voltados para oriente, para Jerusalém, para o nascer do sol. Actualmente, a prática litúrgica é exercida versus populum, onde o celebrante está de frente para os fiéis.


 

7 - Origem da Missa de Legado celebrada nos dias das festividades. Parte do Testamento de Rosa Meira Dias Torres onde consta o referido legado.(1949)