18.8.21

Os caminhos da arte entre as duas Guerras Mundiais

1918 . 1939

 

Pintomeira 

Artista Plástico . Ensaísta
(Escrito segundo as regras do anterior acordo ortográfico)

 

  1 . Breves Apontamentos Históricos

  2 . Os Loucos Anos 20 . A Música . A Dança . A Literatura

  3 . Acontecimentos Históricos . A Revolta dos Artistas . “Retour à L’Ordre”

  4 . Futurismo

  5 . Dadaísmo

  6 . Surrealismo

  7 . A resposta dos artistas alemães e a Escola Bauhaus

  8 . O Expressionismo e a sua nova visão

  9 . Neue Sachlichkeit (Nova Objectividade)

10 . De Stijl ( O Estilo ou o NeoPlasticismo)

 

                                                 Breves Apontamentos Históricos

 

Só em Setembro de 1914, o conflito bélico, em curso, passou a ser denominado de Primeira Guerra Mundial, assim escrito, pela primeira vez, pelo biólogo alemão Ernest Haeckel. Previamente foi intitulada de Grande Guerra ou, optimisticamente, como "a Guerra para acabar com todas as Guerras".

 

O prelúdio da Primeira Guerra Mundial teve como rastilho o assassinato do arquiduque e herdeiro presuntivo do trono do Império Austro-Húngaro, Francisco Fernando, em 28 de Junho de 1914, pelo nacionalista sérvio Gavrilo Princip, na cidade de Sarajevo, na Bósnia.

O Império Austro-Húngaro que tinha anexado a Bósnia, em 1908, reagiu, enviando um ultimato ao governo da Sérvia, mas este nunca se mostrou disposto a aceitar todos os seus pontos. Como consequência, em 28 de Julho de 1914, a Austria- Hungria declarou guerra à Sérvia, decidindo bombardear Belgrado, sua capital, o que levou a Rússia a ordenar a mobilização total para defender os seus etnónimos eslavos servos.

Um assunto bilateral entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, tornou-se, rapidamente, num conflito que pôs frente a frente, as grandes potencias da Europa, divididas em duas grandes coligações: a Rússia, a França e a Grã-Bretanha (Tríplice Entente) e a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália (Tríplice Aliança).

 

                                                                                    Guerra das trincheiras

 

No decorrer da guerra, a Tríplice Entente iria transformar-se numa Grande Aliança com a entrada dos Estados Unidos da América, Irlanda, Portugal, Japão e Itália (que saiu da Tríplice Aliança), e o Império Otomano e a Bulgária iriam juntar-se aos chamados Poderes Centrais (Tríplice Aliança), fazendo com que o conflito se convertesse na, extremamente mortífera, Primeira Guerra Mundial.

As novas tecnologias desenvolvidas para o armamento militar que foi colocado frente a frente, como o uso de aeronaves, submarinos, tanques blindados e a utilização de armas químicas, aliado à estratégia do combate de trincheiras, tornaram este conflito num palco de horrores e numa carnificina sem precedentes.

A derrota dos Poderes Centrais levou ao desmantelamento dos Impérios Alemão, Austro-Húngaro, Otomano e o  Russo, terminando com as dinastias dos Hohenzollerns, dos Habsburgs, dos Otomanos e dos Romanovs e tendo, como consequência, um novo desenho geográfico do mapa da Europa Central, originando a formação de pequenas novas nações.

 

Assinatura do armistício, 1918

 

A sinistra e mortífera guerra de trincheiras terminaria, oficialmente, às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de Novembro de 1918, com a Alemanha a assinar um armistício com os aliados, num vagão de um comboio estacionado em Compiègne, França.

Tinha, assim, chegado ao fim o sangrento conflito armado, com a derrota da Alemanha e seus aliados e que provocou cerca de 18 milhões de mortos (militares e civis). A paz seria formalizada com o Tratado de Versalhes, assinado no dia 28 de junho de 1919.

 

Em 2018, 100 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Tate Britan, em Londres, reúne cerca de 150 obras produzidas, entre 1916 e 1932, por artistas alemães, britânicos e franceses. Obras de Max Ernest, Otto Dix, Kurt Schwitters, Winifred Knights, André Masson, Ferdinand Leger, George Braque, Pablo Picasso, entre outros, marcaram presença e documentaram o impacto destructivo da guerra, a consequente crítica social e preconizando a construção de um novo mundo e uma nova ordem, após tamanho fracasso da civilização humana.

 

Otto Dix, 1920 | Artists on the Front Line

 

A guerra é cruel, destrutiva e desumana. Mas, calados definitivamente os canhões e curados o trauma e o sofrimento  que aterrorizaram os sobreviventes, o pós-guerra traz, sempre, mudanças acentuadas no campo social, cultural, político e económico que conduzem à prosperidade.

 

 

Os Loucos Anos 20 . A Música . A Dança . A Literatura

 

Os Estados Unidos da América tornaram-se na maior potência mundial e foi lá que surgiram as mais impactantes mudanças sociais e culturais, traduzidas num optimismo que veio a manifestar-se, segundo o famoso escritor F. Scott Fitzgerald, na Jazz Age Roaring Twenties (os Loucos Anos 20). Este movimento traduziu-se em mudanças trazidas por uma sociedade jovem que a separou, definitivamente, da conservadora era Victoriana dos seus pais. 

 

Jazz Age Roaring Twenties

 

Outras atitudes comportamentais foram introduzidas, principalmente, pelas mulheres jovens e rebeldes que ansiavam pela libertação das amarras conservadoras e manifestavam condutas mais liberais e despreocupadas, notadamente, com o uso de um vestuário mais leve e mais reduzido, adequado ao advento das novas danças originadas no recém surgido Charleston Jazz. Os músicos Louis Armstrong, Duke Ellington, Bessie Smith and the Jimmy Durante jazz band, foram alguns dos grandes protagonistas desse período chamado Jazz Age. 

 

Os anos pós Primeira Guerra Mundial foram, também, muito prolíferos na área da literatura. Surgiram, então, dois grupos de escritores: The Harlem Renaissance, nascido no bairro de Harlem, Manhattan, New York, foi um movimento cultural das novas expressões afro-americanas, conhecido como The New Black Movement, centrado principalmente na literatura e na música e The Lost Generation (Geração Perdida), grupo idealizado por Gertrude Stein e popularizado por Ernest Hemingway que o incluiu, em epígrafe, no seu livro The Sun Also Rises1 (O Sol Nasce Sempre), confirmando a reputação literária que dominou e enriqueceu os anos 20 e 30 do passado século.

 

 Ernest Hemingway e Gertrude Stein  



 


The Lost Generation (Geração Perdida) era composta por um grupo de jovens escritores, a maioria vivendo em Paris, que sentiram os terrores da Guerra e que saíram dela manifestando, nos seus escritos, o desencanto, a repulsa e o cinismo em relação às consequências desastrosas e desumanas provocadas por esse conflito bélico mundial.

 

 

1 Romance publicado em 1926, é considerado uma obra prima de Ernest Hemingway e um exemplo notável do seu poderoso estilo literário. A narrativa retrata a geração do pós-guerra mundial (1914-1918), os seus desencantos, as suas inquietudes e as suas frustrações. The Sun Also Rises, (O Sol nasce sempre), conhecido, também, por Fiesta, colocou Ernest Hemingway no patamar dos grandes escritores do século XX. Tornado, rapidamente, um romance de culto para uma geração sem raízes e que vivia a tentar encontrar a VIDA, no pós-guerr a.




 

Desse grupo faziam parte, entre outros, T. S. Eliot, Ezra Pound, John dos Passos, E. E. Cummings, e os já mencionados Gertrude Stein, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald (The Great Gatsby).

 

F. Scott Fitzgerald | The Great Gatsby, 1925

 

Na verdade, The Roaring Twenties que acordaram do pesadelo de uma guerra devastadora e humanamente dolorosa, vieram dar origem a um período interessante e produtivo, orientando os escritores, músicos e artistas a criar obras cheias de dinamismo e inovação nas áreas da literatura, da música e das artes visuais.

 

            Acontecimentos Históricos . A Revolta dos Artistas . “Retour à L’Ordre”

 

Os anos Entreguerras (1918 . 1939) fazem parte de um período de grandes transformações nos campos político, social, intelectual e artístico, influenciado por acontecimentos diversos como as repercussões da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, a tomada do poder, em Itália, por Benito Mussolini, impondo um regime fascista, em 1920, a Grande Depressão, em 1929, nos Estados Unidos, a implantação do nazismo, na Alemanha, com a subida de Adolf Hitler a chanceler em 1933 e a blitzkrieg contra a Polónia, em 1939, dando início à Segunda Guerra Mundial.

 

Este período Entreguerras começou, em 1918, com a assinatura do armistício entre a Alemanha e os aliados, num vagão de um comboio estacionado em Compiègne, França, sendo a paz formalizada com o Tratado de Versalhes, assinado no dia 28 de junho de 1919 e terminou em 1939 com a invasão da Polónia, como, acima, já referenciado.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, a maioria dos artistas, incapazes de abarcar e assimilar as realidades bárbaras e hediondas que aconteceram nos campos de batalha, e tendo alguns deles experienciado essas horrendas provações, in loco, decidiram direccionar a sua expressão artística para outras linguagens e outras estéticas menos padronizadas.

Nos anos subsequentes ao fim do conflito, os artistas rejeitaram categoricamente todas as vanguardas existentes e que proliferaram, antes de 1918, como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo e o Futurismo. Vários movimentos surgiram impulsionados por artistas desiludidos e enfurecidos com o fracasso da civilização humana, tendo levado, em França, Pablo Picasso e Georges Braque, os grandes propulsores do Cubismo, a declararem o surgimento do movimento “Retour à L’Ordre” (O Regresso à Ordem) caracterizado por um retorno a temas de estilo neoclássico (Picasso) e a uma imagética de inspiração mais tradicional (Braque).

 

                   Seated Woman in a Chemise . 1923                                 Retour à L'Orde . 1924

                                     Pablo Picasso                                                  George Braque

 

 

Futurismo 

 

Em Itália, o Futurismo, expressava, no seu manifesto2 da autoria do poeta Filippo Tommaso Marinetti, uma certa euforia pela guerra e idolatrava a máquina veloz que simbolizava o futuro. Tendo considerado o conflito armado como uma catarse e um teste à masculinidade, este movimento foi totalmente depreciado, desacreditado e abandonado no fim do conflito bélico. Artistas ligados profundamente a esta vanguarda, como Carlo Carrà, Umberto Boccioni, Giacomo Balla e Gino Severini acabaram por priorizar outros estilos ou linguagens artísticas na representação das suas obras, nos anos subsequentes ao fim do confronto armado.

O Futurismo é um movimento fundamentalmente italiano e com uma orientação nacionalista. Aclamando a guerra e a violência, utilizavam o design tipográfico como propaganda feita nos jornais que eram transformados em montra desse nacionalismo traduzido nas máquinas industriais, máquinas de guerra e automóveis, como símbolo de progresso e velocidade.

 


                                                              The Lancers . 1915 . Gino Severini

 

2Manifesto Futurista (Excertos)

  Filippo Tommaso Marinetti . 1909

 

1.    Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e do destemor.

2.    A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3.    A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4.    Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5.    Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6.    É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificência para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7.    Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

8.    Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade omnipresente.

9.    Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multi-cores e polifónicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

12. É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

 

Dadaísmo

 

O Dadaismo ou simplesmente Dada foi concebido e parido no Cabaret Voltaire em 1916, em Zurique, Suíça, já no decorrer do conflito armado, como mais um movimento vanguardista. Coloquial, ab initio, ele iria radicalizar-se e tornar-se, rapidamente, num pronunciamento de expressão internacional, denunciando os nacionalismos e os interesses imperialistas que deram origem à Primeira Guerra Mundial.

Formado por um grupo de artistas, poetas e escritores que, preconizando uma via radical, abraçaram o nonsense, a irracionalidade, rejeitando toda a estética da sociedade moderna, a lógica e a razão.

Ligados, na sua maioria, a uma ideologia política de esquerda, o grupo de artistas e intelectuais dadaístas, desaprovava a burguesia e expressava o seu descontentamento contra a violência da guerra e o nacionalismo a ela inerente.

O movimento Dada cujos princípios apareceram escritos no seu primeiro Manifesto3 apresentado, em 1916, pelo alemão Hugo Ball, refugiado em Zurique, faz fortes declarações políticas contra o conflito armado, em curso, e o deplorável estado em que se encontrava a sociedade. O movimento nasceu de uma reacção hostil aos horrores da Primeira Guerra Mundial, sendo a sua intenção provocar, ofender e desestabilizar o statu quo instalado na comunidade, chocar o senso comum e a opinião pública e inquietar as suas consciências.  Assim escreveu Marcel Janco, arquitecto e teórico da arte, co-fundador do movimento, mas de breve passagem pelo grupo: “Nós não temos confiança na nossa cultura. Tudo terá de ser demolido. Recomeçaremos depois da tabla rasa…”.

 

Ilustração Dadaísta  

 

3Manifesto Dadaísta (Excertos)

 Hugo Ball . 1916

 

DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA.

Se o consideramos fútil e se não queremos perder nosso tempo com uma palavra que não significa nada... O primeiro pensamento que vem a essas cabeças é de ordem bacteriológica: encontrar sua origem etimológica, histórica ou psicológica, pelo menos. Vemos nos jornais que os negros Krou chamam a cauda de uma vaca sagrada: DADÁ. O cubo, e a mãe, em uma certa região da Itália: DADÁ. Um cavalo de madeira, a ama de leite, uma dupla afirmação em russo e em romeno: DADÁ. Jornalistas cultos ali veem uma arte para os bebés, outros santos Jesus chamando as criancinhas do dia, a volta a um primitivismo árido e ruidoso, ruidoso e monótono. Não se constrói sobre uma palavra a sensibilidade; toda construção converge para a perfeição que entendia, ideia estagnada de um pântano dourado, produto humano relativo. A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque ela está morta; nem alegre nem triste, nem clara nem escura, deleitar ou maltratar as individualidades servindo-lhes os doces de auréolas santas ou os suores de uma corrida ondulante pela atmosfera. Uma obra de arte jamais é bela, por decreto, objectivamente, para todos. A crítica é, portanto, inútil, ela só existe subjectivamente, para cada um, e sem o menor carácter de generalidade. Acredita-se ter encontrado a base psíquica comum a toda a humanidade? A tentativa de Jesus e a Bíblia ocultam sob suas asas amplas e benevolentes: a merda, os animais, os dias.

...

O cubismo nasceu da simples forma de olhar o objecto: Cézanne pintou uma taça 20 centímetro mais baixa que seus olhos, os cubistas a vêem do alto, outros complicam a aparência cortando uma secção perpendicular e dispondo-a prudentemente do lado. (Não esqueço os criadores, nem as grandes razões da matéria que eles tornaram definitivas.) O futurista vê a mesma taça em movimento, uma sucessão de objectos um ao lado do outro, ornamentados maliciosamente de algumas linhas de guia. Isto não impede que a tela seja uma boa ou má pintura destinada ao investimento de capitais intelectuais. O pintor novo cria um mundo, cujos elementos também são os meios, uma obra sóbria, definida e irrefutável. O artista novo protesta: ele não pinta mais (reprodução simbólica e ilusionista), mas cria directamente em pedra, madeira, ferro, estanho, rochas, ou estruturas móveis que podem ser viradas de todos os lados pelo vento límpido da sensação momentânea.

Toda obra pictórica ou plástica é inútil, ainda que seja um monstro que mete medo aos espíritos servis, e não adocicada para ornar os refeitórios dos animais em trajes humanos, ilustrações desta triste fábula da humanidade. — Um quadro é a arte de fazer duas linhas geometricamente paralelas se encontrarem em uma tela, diante de nossos olhos, na realidade de um mundo transfigurado segundo as novas condições e possibilidades. Esse mundo não é especificado nem definido na obra; ele pertence, em suas inúmeras variações, ao espectador. Para seu criador, ele é sem causa e sem teoria.

...

Eu lhes asseguro: não existe começo e nós não trememos, nós não somos sentimentais. Nós rasgamos, qual vento furioso, a roupa branca das nuvens e das preces, e preparamos o grande espectáculo do desastre, o incêndio, a decomposição. Preparemos a supressão do luto e substituamos as lágrimas por sereias estendidas de um continente ao outro. Pavilhões [no sentido do tubo de instrumento de sopro — N. do T.] de alegria intensa e viúvos da tristeza venenosa. DADÁ é o sinal da abstracção; a propaganda e os negócios são também elementos poéticos.

Eu destruo as gavetas do cérebro e aquelas da organização social: desmoralizar por toda a parte e jogar a mão do céu no inferno, os olhos do inferno no céu, restabelecer a roda fecunda de um circo individual nos poderes da realidade, e a fantasia de cada indivíduo.

A questão é filosófica: de que ângulo começar a olhar a vida, Deus, a ideia, ou seja lá o que for. Tudo que se olha é falso. Não considero o resultado relativo mais importante que escolher entre doces e cerejas na sobremesa. A maneira de olhar rápido o outro lado de uma coisa, para impor indirectamente sua opinião, chama-se dialéctica, ou seja, decidir no cara-ou-coroa sob uma aparência de seriedade.

 

 

O movimento tornou-se, rapidamente, extensivo a outras expressões, envolvendo as artes plásticas, a literatura, o teatro, a teoria da arte e outras linguagens afeitas.

Marcel Duchamp e Francis Picabia, fugidos da guerra, terão, segundo alguns historiadores de arte, pertencido a um grupo Proto-Dada de Nova York, onde estavam refugiados, nomeadamente, após a apresentação da peça “The Fountain” (Urinol) no Salão dos Independentes de 1917 e que Duchamp assina R. Mutt. Embora, oficialmente rejeitada, esta peça acabou por imortalizar os ready mades que os artistas contemporâneos, incapazes de encontrar outros caminhos criativos, decidiram ressuscitar, imitar e apresentar, actualmente como ready mades de ready mades.

 

Marcel Duchamp . The Fountain . 1917



No entanto, foi em Paris, no início dos anos 20 que o Dadaísmo prosperou, uma vez que que foi para a capital francesa que convergiram os seus mais importantes impulsionadores, como Hans Harp, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Francis Picabia, Man Ray e Max Ernest, entre outros. Foi, também, em Paris que o movimento Dada se alicerçou, consolidou e, já amadurecido iria dar origem ao Surrealismo, outro marcante movimento da História de todas as Artes, dando, no início, maior relevância à arte da escrita (a escrita automática).

 


 

Surrealismo

 

Surrealismo, uma palavra que expressa algo que se encontra situado no âmbito da surrealidade ou que está para além do que é real. A palavra surrealismo terá sido escrita, primeiramente, pelo francês Guillaume Apollinaire, poeta, dramaturgo, novelista e crítico de arte, após ter assistido, em 1917, no Théâtre du Chatelet, em Paris, ao ballet Parade, coreografado por Leonide Massine, cenário de um acto de Jean Cocteau, com design de Pablo Picasso.

Também, em 1917, a peça de teatro “Les Mamellles de Tirésies” escrita por Guillaume Apollinaire, apresentada como um drama em dois actos e um prólogo, foi levada ao palco do teatro Galabru, em Paris e, imediatamente, rotulada como a primeira obra do surrealismo.

Nesses tempos, quando o gás tóxico aterrorizava e os canhões ainda soavam nos campos de batalha, existia, somente, a palavra inventada por Guillaume Apollinaire, e não ainda, o amplo movimento literário e artístico que, nos anos 30, iria expandir-se a nível global.

No início dos anos 20, Paris era o grande centro cultural do mundo ocidental, os grandes nomes das artes e da literatura estavam lá e a divulgação das grandes ideias e das iluminadas concepções intelectuais aconteciam durante as tertúlias realizadas à volta das mesas dos enfumarados cafés Les Deux Magots e o Flore, na Rive Gauche.

O escritor e poeta francês, André Breton, tendo habitado o movimento dadaísta e convivido com os seus grandes correligionários e praticantes, encontrava-se, no início dos primeiros anos da década de 1920, a cogitar e a teorizar sobre o Manifesto do Surrealismo que na sua génesis era, maioritariamente, literário e tendencionalmente político.

Em 1924, André Breton publica, finalmente, o seu primeiro Manifesto4:

 

4Manifesto Surrealista (Excertos)

Em homenagem a Guillaume Apollinaire, que morrera há pouco, e que por diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse género, sem, entretanto, ter aí sacrificado medíocres meios literários, Soupault e eu designamos com o nome de SURREALISMO o novo modo de expressão pura, agora à nossa disposição, e com o qual estávamos impacientes para beneficiar nossos amigos. Creio não ser mais necessário, hoje, repisar esta palavra, e que a acepção em que a tomamos acabou por prevalecer sobre a acepção apollinairiana. Ainda com maior razão poderíamos ter-nos apossado da palavra SUPERNATURALISMO, empregada por Gerard de Nerval na dedicatória de Filles de Feu. Com efeito, parece que Nerval possuiu às mil maravilhas o espírito ao qual recorremos, enquanto Apollinaire não possuía senão a letra, ainda imperfeita, do surrealismo, tendo sido incapaz de lhe traçar um esboço teórico que valha a pena. Eis duas frases de Nerval que acerca disso me parecem bem significativas:

...

Só com muita fé poderiam nos contestar o direito de empregar a palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos, pois está claro que antes de nós esta palavra não obteve êxito. Defino-a, pois, uma vez por todas.

SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral.

 

André Breton era psiquiatra e conhecia bem o livro de Sigmund Freud, “A Interpretação dos Sonhos” lançado em 1899 e que abordava a psicanálise, a investigação do inconsciente e a percepção dos sonhos. A doutrina surrealista implícita nos seus manifestos (1924 e 1929), indica, precisamente, esse caminho para o inconsciente, para a recusa da racionalidade e da moral, com o objectivo de desbloquear e libertar o poder total da imaginação

René Magritte . Les Valeurs Personelles . 1951

 

O grupo que assinou este ditado era constituído por reputadas figuras da intelectualidade francesa: ao lado de André Breton estiveram Louis Aragon, Paul Éluard, Philippe Soupault, Michel Leris, Benjamin Peret e Robert Desnos, entre outros.

Durante os restantes anos da década de 1920 e da década de 1930, o surrealismo, tornou-se no maior movimento cultural abrangendo a poesia (Paul Éluard), a narrativa (Louis Aragon), a pintura (Max Ernest, Salvador Dali), a escultura (Alberto Giacometti), o teatro (Antonin Artaud), o cinema (Luis Buñuel), a fotografia (Man Ray) e na arquitectura (Antonio Gaudi). Ele continuou no pós Segunda Guerra Mundial, sendo, ainda hoje, uma fonte de inspiração nas mais variadas expressões e linguagens artísticas.

Tendo dado, no início, mais importância à escrita automática, como acima já mencionado, foi, no entanto, na área das artes plásticas que o surrealismo teve o seu maior destaque e expressão internacional. Notáveis artistas como Max Ernest, André Masson, Salvador Dali, Joan Miró, René Magritte, Paul Delvaux, Frida Kahlo, Man Ray, Alberto Giacometti, Giorgio de Chirico, Francis Picabia e mesmo Pablo Picasso (com uma passagem fugaz), fizeram parte do movimento ou expressaram nas suas obras o pensamento e os ditames surrealistas.

 

Salvador Dali . A Tentação de Santo Antão . 1937



Quanto à ligação ao mundo da política, André Breton e outros membros do movimento tiveram uma relação, embora atribulada e de pouca duração, com o partido comunista francês, (Breton aderiu ao partido em 1927 tendo sido expulso em 1933). Com esta ligação ao marxismo, o surrealismo pretendeu ser um movimento revolucionário com a ideia de transformar o mundo, tendo este desígnio dado origem a uma ruptura entre os membros do grupo.

O movimento surrealista acabou por se dissolver em 1966, com a morte de André Breton, embora alguns apontem o início da Segunda Guerra Mundial como o seu término. No entanto, ele continuou a ter notáveis artistas a vaguear pelo mundo onírico (Salvador Dali, Joan Miró, Max Ernest, André Delvaux), e é ainda hoje, uma fonte de inspiração nas mais variadas expressões e linguagens artísticas.

 

 

A resposta dos artistas alemães e a Escola Bauhaus

 

O mundo artístico alemão saiu traumatizado do conflito bélico. Alguns artistas tinham sido alistados para participar na guerra. Otto Dix, George Grosz, Ernst Ludwig Kirchner, Oskar Kokoschka, entre outros, sobreviveram ao conflito, outros acabaram por morrer no campo de batalha, elegendo os expressionistas Frans Marc e August Macke como os mais renomados.

Apesar da derrota, da infâmia e da desmoralização, a Alemanha, rapidamente, se levantou e, particularmente, no campo artístico, aqueles que sobreviveram deram mostras de forte vitalidade e relevante energia criativa.


 

No campo político, foi instalada, em 1919, a República de Weimar, uma democracia representativa que, sofrendo algumas alterações pelo caminho, iria vigorar até 1933, início do regime totalitário nazi. E Foi a partir da cidade de Weimar, que a cultura alemã deu um grande passo a caminho do seu florescimento com o nascimento, em 1919, da Escola de artes BAUHAUS5 (1919 . 1925) criada pelo arquitecto Walter Gropius e que representava o modernismo alemão. A Escola nasce da união de duas Instituições já existentes: A Escola de Artes Aplicadas (Angewandten Kunst) dirigida por Henry van de Velde e a Escola de Belas Artes (Akademie der Bildenden Künste) cujo director era Peter Behrens.


Devido a circunstâncias inadiáveis, e escola mudou para Dassau (1925 . 1932) onde foi construído um edifício para a instalar e que foi considerado um ícone da arquitectura moderna. Devido a pressão política, a Bauhaus foi forçada a mudar, novamente, de localização, desta vez para Berlim (1932 . 1933), tendo como director o reputado arquitecto Ludwig Mies van der Rohe.

 

A Bauhaus pretendia, segundo o seu fundador, Walter Groupius, conciliar belas artes com o artesanato, acabando por se tornar numa Escola de grande influência internacional e inovadora ao testar novas concepções artísticas nas áreas da arquitetura, artes plásticas, escultura e design, tornando-se num grande centro de estudos do modernismo e do funcionalismo.

Renomados artistas foram professores na Escola, destacando, entre outros, Wassily Kandinsky, Paul Klee e Laszló Moholy-Nagy. Em 1933, foi forçada ao encerramento pelo regime Nazi, por ser considerada um centro do intelectualismo comunista.


 

5 Manifesto Bauhaus

  1919, por Walter Groupius

 
O objetivo final de toda actividade plástica é a construção! Ornamentá-la era, outrora, a tarefa mais nobre das artes plásticas, componentes inseparáveis da grande arquitectura. Hoje elas encontram-se em singularidade autossuficiente, da qual só poderão ser libertadas um dia através da consciente actuação conjunta e coordenada de todos os profissionais. Arquitectos, pintores e escultores devem conhecer e compreender de novo a estrutura multiforme da construção em seu todo e em suas partes; então suas obras se preencherão outra vez do espírito arquitectónico que se perdeu na arte de salão.

As antigas escolas de arte não eram capazes de criar essa unidade, e como poderiam, já que a arte não pode ser ensinada? É preciso que elas voltem a ser oficinas. Esse mundo de desenhistas e artistas deve, por fim, tornar a orientar-se para a construção. Se o jovem que sente amor pela actividade plástica começar, como outrora, pela aprendizagem de um ofício, o "artista" improdutivo não ficará condenado futuramente ao exercício incompleto da arte, pois sua habilidade será preservada para a actividade artesanal, onde poderá prestar excelentes serviços. 

 



E                                                                                   ESCOLA BAUHAUS



Arquitectos, escultores, pintores, todos devemos retornar ao artesanato, pois não existe "arte por profissão"! Não existe nenhuma diferença essencial entre o artista e o artesão. O artista é uma elevação do artesão. A graça divina, em raros momentos de luz que estão além de sua vontade, inconscientemente faz florescer arte da obra de sua mão, entretanto, a base do "saber fazer" é indispensável para todo artista. Aí se encontra a fonte primordial da criação artística.

Formemos, portanto, uma nova corporação de artesãos, sem a presunção elitista que pretendia criar um muro de orgulho entre artesãos e artistas! Desejemos, imaginemos, criemos juntos a nova construção do futuro, que juntará tudo numa única forma: arquitectura, escultura e pintura que, feita por milhões de mãos de artesãos, se elevará um dia aos céus como símbolo cristalino de uma nova fé vindoura.

 

As artes visuais prosperaram, na Alemanha, entre 1900 e 1933, ano em que o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler como Chanceler, pondo fim à República de Weimar e ao encerramento da Escola BAUHAUS.

 

 

 

O Expressionismo e a sua nova visão

 

O Expressionismo havia sido o estilo mais relevante e abrangente da cena artística alemã, tendo alcançado magnitude nas áreas da pintura (Frans Marc), escultura (Ernst Heinrich Barlach), arquitectura (Ludwig Mies Van Der Rohe), literatura (Georg Buchner), música (Arnold Schoenberg), dança (Mary Wigman), teatro (Georg Kaiser) e mesmo no cinema (Fritz Lang).

Na Pintura, este movimento expressionista teve dois grupos significativos que o representaram: o Blaue Reiter onde pontuavam Wassily Kandinsky, Frans Marc, August Macke e Paul Klee e o grupo Die Brucke com Erich Heckel, Ernest Kirchner e Fritz Bleyl. Embora o expressionismo se tivesse tornado numa expressão artística internacional, duas escolas tiveram um destaque assinalável: Viena (Egon Schiele e Oskar Kokoschka) e Paris (Amadeo Modigliani e Chaim Soutine)

 

 


T                                                          Frans Marc . The Big Blue Horses . 1911

 


O Expressionismo desenvolveu-se, paralelamente com o Fauvismo (Maurice de Vlaminck, Henry Matisse), a partir do início do século XX, como um estilo vanguardista em oposição ao Impressionismo e à Arte Nova (Jugendstil). Ele rejeitava as impressões realistas, objectivas e de tendências científicas dos impressionistas e escolheram abrir um caminho para alma, cultivando o pathos e a fealdade através das suas expressões imagéticas mais emotivas, dramáticas, cheias de sentimento e subjectividade.

O Expressionismo alemão acabaria por sair muito abalado do Conflito Mundial, embora tenha permanecido no período Entreguerras. Alguns artistas que sentiram os horrores da guerra e o ambiente de pessimismo instalado ainda tentaram restabelecer o Expressionismo, formando, em 1918, o Novembergruppe (Grupo de Novembro) que organizou algumas exposições e manteve a chama acesa, ainda que pouco inflamada, até ao advento do nazismo.

 

 

 

Neue Sachlichkeit

 

 

Também, no ambiente derrotista e traumatizante do pós-guerra, outros artistas (Otto Dix, George Grosz, Christian Schad, Ludwig Meidner, Rudolf Schlichter, Max Beckmann e John Heartfield) foram mais reformadores e criaram um novo movimento chamado Neue Sachlichkeit ((Nova Objectividade) como resposta reactiva às estéticas do Expressionismo ante bellum, mas ainda vigente.

O movimento surgiu, em 1920, com o desígnio de conceber uma nova ordem, criando um paralelismo com o “Retour à L’Ordre” (O Regresso à Ordem) de Pablo Picasso e Francis Picabia, já aqui mencionados.

O grupo Neue Sachlichkeit, sendo constituído, maioritariamente, por artistas que serviram no exército alemão, durante a guerra, reprovaram o conflito, exerceram, dura crítica social e mostraram intenções de se envolverem em políticas revolucionárias de cunho marxista. Dissidentes do expressionismo ante bellum, proclamaram formas de um realismo deformado, tenebroso e visceralmente satírico, que reflectia as suas posições censuradoras da sociedade alemã e as suas visões apavorantes e dantescas dos campos de batalha.

 


                                                             George Grosz . Eclipse of the Sun . 1926

 


O movimento reclamava um pensamento anti expressionista, integrado nos conceitos intelectuais da República de Weimar e que pretendia abandonar os caminhos dos idealismos e das orientações românticas. A practicidade e a factualidade, além de viverem no ventre da palavra Sachlichkeit, faziam parte do espírito racional e funcional que se sentava na cátedra da Escola Bauhaus. 

Após ter enunciado o termo Neue Sachlichkeit, em 1924, o director da Kunsthalle em Mannheim, Gustav Hartlaub, organizou, com elevado sucesso uma exposição, em 1925, com obras dos artistas mais prestigiados do Grupo, entre eles, Otto Dix, Max Beckmann, George Grosz e Ludwig Meidner. 

À semelhança do que aconteceu com outros estilos, vanguardas ou movimentos, o Grupo Neue Sachlichkeit teve o seu dramático fim com a sua proibição e destruição das suas obras, após a queda da República de Weimar e  a tomada do poder pelo partido Nazi, em Janeiro de 1933.

 

 

 

                                                                         De Stijl

 

 

A Holanda tinha tido a sua Gouden Eeuw (Era de Ouro) no século XVII, com os mundialmente renomados artistas Rembrandt van Rijn, Johannes Vermeer e Frans Hals, entre outros.

Até à década de 1920 do século passado,  os Países Baixos  nunca deixaram de fazer jus a esses tempos dourados e sempre cultivaram um elevado interesse pelas artes visuais. No entanto,  uma vez chegado o século XX, surgiu novamente, naquele país, um grupo que, tendo fundado (The van Doesburg) e colaborado na Revista De Stijl, forma um novo movimento nas áreas da pintura, arquitectura e design que  ultrapassou as suas fronteiras e construiu um  notável prestígio no mundo da arte moderna. 

O movimento De Stijl, também conhecido como Neoplasticismo (nome adoptado por Piet Mondrian), foi fundado em 1917, em Leiden, tendo  durado até á década de 1930. O Grupo, constituído por Artistas e Arquitectos, sendo os pintores Theo van Doesburg e Piet Mondrian e os arquitectos Jan Vils e Gerrit Rietveld como fundamentais, advogava uma simplificação extrema através de um abstracionismo puro, resumindo a construção das suas obras ao considerar somente a forma, quadrados, rectangulos e as linhas verticais e horizontais e as cores primárias (amarelo, azul e vermelho, combinadas com o pretoa, o branco e o cinza.

 

 

 

Piet Mondrian . Composição . 1921 


Theo van Doesburg, um dos importantes membros do grupo declarou, na revista De Stijl (plataforma para propalar as teorias do movimento), que o estilo terá nascido como reacção ao Barroco Moderno da Escola de Amesterdão que comungava de uma arquitectura expressionista. Uma vez mais, é, aqui, manifesto que o expressionismo não partilhava de grande complacência nos tempos da Primeira Guerra Mundial e mesmo nos posteriores,

Uma vez que a Holanda permaneceu Neutral durante o conflito armado, Theo van Doesburg, não sofreu as perturbações da guerra como os seus congéneres alemães, não deixando, no entanto, de a mencionar no seu Manifesto De Stijl6, escrevendo que “a guerra está desestruturando o velho mundo e o seu conteúdo”.

 

6  Manifesto DE Stijl

 

 

1.Existe uma velha e uma nova compreensão do tempo. A velha está relacionada com o individual. A nova está relacionada com o universal. A disputa entre individual e universal se mostra tanto na Guerra Mundial quanto na arte contemporânea.

2. A guerra está desestruturando o velho mundo e o seu conteúdo: predominância do indivíduo em todos os campos.

3. A nova arte trouxe à luz o que a nova compreensão do tempo contém: um equilíbrio entre o universal e o individual.

4. A nova compreensão do tempo está preparada para se realizar tanto na vida interna quanto na externa.

5. Tradições, dogmas e o predomínio do individual (do natural) estão impedindo essa realização.

6. Por isso, os fundadores das novas artes plásticas pedem a todos que acreditam na reforma da arte e da cultura para aniquilar esses obstáculos do desenvolvimento, assim como eles aniquilaram nas novas artes plásticas (abolindo as formas naturais) aquilo que impede a pura expressão artística, a consequência final de todas as formas de arte.

7. Os artistas do presente, impulsionados por uma mesma consciência em todo o mundo, tomaram parte na guerra mundial contra o domínio do individualismo e da arbitrariedade, de um ponto de vista intelectual. Eles simpatizam, então, com todos que lutam, intelectual ou materialmente, a favor da formação de uma união na vida, na arte, na cultura.

8. A publicação “De Stjil”, fundada para esse fim, pretende contribuir para essa nova visão da vida de uma maneira exata.

9. A cooperação de todos é possível através de:

I. Mandar, como prova de sua adesão, nome completo, endereço e profissão para o editor do “De Stjil”.

II. Enviar artigos críticos, filosóficos, arquitetônicos, científicos, literários e musicais, bem como reproduções para a revista mensal “De Stjil”.

III. Traduções para diferentes idiomas e divulgações dos ideais publicados no “De Stjil”.

Assinatura dos colaboradores:

Antony Kok, poeta, Theo van Doesburg, pintor, Piet Mondriaan, pintor Robt. Van ‘t Hoff, arquiteto, G. Vantongerloo, escultorVilmos Huszar, pintorJan Wils, arquiteto.


 

Piet Mondrian 7 definia "De Stijl" de uma maneira muito simplificada: "Toda a pintura, a do passado e a do presente, mostra-nos que a prática essencial para a  sua plasticidade está, somente, no uso de linhas e cores". De facto, o seu grupo de artistas fortalecia a ideia de que era profundamente necessário legitimar  um pensamento que defendesse a depuração e a pureza das formas e a virtualidade da natureza, uma vez que, supostamente, elas viviam ofuscadas pela representação figurativa.

Fica, assim, muito claro que os " De Stijlists" defendiam, de uma maneira arrebatada, a abstracção pura através da construção de formas geométricas justapostas, linhas ortogonais e de equilíbrios assimétricos, fechando a porta a qualquer representação, mesmo que adornada de qualquer simbolismo.

 

  Embora fazendo parte do grupo De Stijl, Piet Mondrian adoptou o termo Neoplasticismo para melhor definir o seu trabalho. Considerando-se o pioneiro da arte abstracta, declarou na revista De Stijl:

“Como pura representação da mente humana, a arte irá expressar-se de uma forma esteticamente purificada, mais precisamente, de uma forma abstracta. A nova ideia plástica nunca poderá tomar a forma de uma representação natural ou concreta – ela irá ignorar os detalhes da aparência, isto é, a forma e a cor natural. Pelo contrário a sua expressão será encontrada na abstracção da forma e da cor, na linha recta e na, claramente definida, cor primária".

Piet Mondrian acabou por ter uma forte discordância com Theo van Doesburg uma vez que este optou pelo uso de linhas diagonais nas suas obras, decisão que levou a um rompimento entre os dois, em 1924. Piet Mondrian considerou que a linha diagonal criava a percepção de profundidade, característica que iria contra o seu conceito de abstraccionismo puro e plano, buscando a ideia utópica de uma harmonia universal em todas as artes, influenciando o comportamente humano e a sociedade

 

Não tendo exercido uma influência tão abragente como aconteceu na Pintura, os princípios do Grupo De Stijl também chegaram à Arquitectura e ao Design. Não acontecendo de uma maneira tão extensiva como nas artes plásticas, já que a Arquitectura necessita de maiores investimentos, houve, no entanto, um Arquitecto que merece ser aqui destacado: Gerrit Rietveld. Tornou-se membro do Grupo em 1919 tendo rompido com o mesmo em 1928 para se juntar ao movimento alemão Neue Sachlichkeit. Entretanto, já duas obras de sua autoria  tinham obtido reconhecimento mundial: no design de móveis a famosa Red and Blue Chair (1919) e na Arquitectura, a célebre Schroder Huis construída em Utrecht (1924).

 



                                                  Red and Blue Chair (1919) e a Schoder Huis (1924)

                                         

Ao contrário do Grupo CoBrA,8 (artistas de Copenhagen, Bruxelas e Amesterdão), o movimento De Stijl teve origem e residência nos Países Baixos, tendo  os seus elementos de maior relevo a naturalidade holandesa: Theo van Doesburg, Piet Mondrian, Gerrit Rietveld, Anthony Kok, Bart van der Leck, Jan Vils, Robert van ‘t Hof, J.J.P.Oud e Cornelis van Eesteren. Devido à grande influência que os holandeses Karel Appel, Corneille e Lucebert tiveram no grupo e ao seu consequente reconhecimento mundial,  CoBrA aparece, muitas vezes,  relacionado como um movimento vanguardista dos Países Baixos ou mais propriamente, da sua capital, Amesterdão.



 

9O Grupo CoBrA foi uma vanguarda nascida no pós Segunda Guerra Mundial, em 1948 e, assim denominada pelo artista belga Christian Dotremont. CoBrA é um acrónimo constituído pela agregação das letras iniciais das capitais da Dinamarca (Copenhagen), Bélgica (Bruxelas) e Países Baixos (Amesterdão), explanando a origem dos seus principais artistas. Baseado na espontaneidade, no experimentalismo com influências da arte primitiva e em desenhos infantis. Alguns artistas mundialmente renomados: Karel Appel, Corneille, Pierre Alechinsky e Asger Jorn.



 

 Pintomeira . 2021

 Artista Plástico . Ensaísta