3.2.12



É urgente autopsiar a bexiga da arte moribunda

Pintomeira

Artista Plástico


Num pequeno texto que pode ser lido no convite feito para uma das minhas exposições, em 1975, eu escrevia: “Insurjo-me contra a expressão mecânica e preguiçosa, contra a sonolência e a falta de criatividade no mundo da arte, na minha geração. Passado meio século da revolução surrealista, é tempo de autopsiar a bexiga da arte moribunda.” Nessa altura, estava próximo o termo do meu período surrealista começado em Amesterdão, em 1972. Contudo, esta declaração, parece-me, actualmente, mais pertinente e mais incisiva do que naquele tempo. Algumas galerias e museus de prestígio, compelidos por um certo excesso de zelo, por alguma vanglória dos seus curadores e seguindo a implementação de um pretensioso critério por eles definido, têm apresentado ao público, nas últimas décadas, uma forma de arte enganosa, desviando-a dos seus valores estéticos e mostrando um enorme vazio de seriedade e criatividade. Trabalhos como: vídeo arte sem rigor, fotografias de aniversário e turismo, gigantes e arbitrárias instalações de bricolage, acumulação, ao acaso, de destroços e lixo, ready-mades de ready-mades e transformações levianas e aleatórias, tem confiscado, nas últimas décadas, grande parte dos espaços de museus e galerias. A maioria dos visitantes, parece comportar-se como espectadores ausentes, vagueando como sonambúlicos e, não tendo qualquer interacção com aquelas peças ilusórias espalhadas pelo chão, interrogam-se se eles próprios não seriam capazes de acumular todo aquele material ou, mesmo, fazer melhor. Ele não tem a percepção de que está a ver arte, mas produtos que invadem e ocupam o chão por onde, com dificuldade, caminha, contornando todo aquele amontoado de matéria-lixo.

Geysell Capetillo | Contención | 2003

Recentemente, o artista britânico da pop art, David Hockney dizia numa entrevista: “...o mundo da arte ignora, hoje, a arte figurativa: pintura, esculturas que representam o mundo em que vivemos. ...o poder está nas imagens e, ao negligenciá-las, o mundo da arte tem esquecido o mais importante: a Arte.”

Aconteceu um processo de desconstrução do conceito Arte. Ele foi impelido para os limites da sua fronteira, onde quer que essa fronteira se encontre. Já não é a arte que faz o artista, mas um complexo sistema de mercado que o transforma num fazedor de “peças”, obedecendo a uma qualquer autoridade, a um curador ou a um sistema existente.
Este sistema que alimenta um dissimulado e enganoso ambiente artístico é, agora, capaz de transformar um qualquer “instalador” ou “constructor” numa pessoa famosa e endinheirada, mas é incapaz de fazer dele um Artista. O crítico britânico, Julian Spalding, escreveu: “Damien Hirst não é um artista. Os seus trabalhos ...não tem conteúdo artístico e são inúteis como trabalhos de arte... Eu inventei o termo Con Art, reduzido para arte contemporânea conceptual e para a arte que defrauda as pessoas. Arte contemporânea conceptual? Toda a arte é um conceito no sentido em que é um produto do pensamento ... Mas toda a arte tem que ser também criatividade...Michelangelo foi um artista e Damien Hirst não é. As ideias extremamente subtis e profundamente emotivas de Michelangelo estão presentes nas suas obras; elas não são pretensiosas profanidades arrancadas do alto da sua cabeça.”



Damien Hirst | Away from the flock | 1994

O Conceptualismo (1965-1975) abriu a porta e pavimentou a estrada para o Contemporâneo. Embora, a arte conceptual tenha tido uma prenhez de meio século no útero dos ready-mades (1917) de Marcel Duchamp, mesmo assim, não foi capaz de parir nada mais do que conceitos, escritos e algumas declarações intelectuais.
Um dos seus mentores, Joseph Kosuth, afirmou que a simples proclamação de uma ideia artística seria o suficiente para que tal seja considerada uma obra de arte, confirmando, assim, a sua noção de base: ideia-arte. Outro mentor, Lawrence Weiner declarou, numa visão mais fundamentalista, que o artista deveria renunciar à prática da criação de uma obra de arte física, colocando de lado a estética, a plasticidade, e mesmo a técnica e o conhecimento. Todas estas manifestações de uma ilusória “não-arte”, ou “...cultura de diversão” como lhe chamou o crítico Julian Spalding, têm sido mostradas ao público, em espaços de prestígio, promovidas pelos interesses do mercado, pela jactância de directores artísticos e curadores de museus, pela vulgar prosápia de galeristas e tendo o acolhimento de alguns colecionadores. O reputado historiador de arte, ensaísta e membro da academia francesa, Jean Claire, escreveu: "É um facto que a mediocridade intelectual dos meios artísticos ocidentais, o filistinismo da crítica, a falta de cultura e de gosto da maioria dos directores das instituições, se acomodaram a uma situação onde a obra é reduzida a nada mais do que a irrisória espuma da arte." O especulativo mercado de arte transformou-se no regulador do artista, castrando-o e relegando-o para uma posição de tutela e subordinação. A obra de arte perdeu a sua aura, a sua definição ou conceito, entrando num devaneio e delírio e desaparecendo no meio de toda esta parafernália de “coisas” que se tornaram triviais e perderam a sua singularidade, não havendo, na maioria dos casos, nenhuma relação entre a obra e o artista. De uma maneira obscena e censurável, a arte foi deixada fora das portas dos museus e foi permitida a entrada à cultura da indústria arte-diversão. O espectador parece perdido naqueles espaços, não encontrando nenhuma relação emocional com tudo aquilo que, distante e friamente, observa.
O britânico David Hickey, considerado o enfant terrible da critica, escreveu: “Eu nunca olho para uma peça de arte. Usualmente eu atravesso as salas de um museu ou galeria e caminho até que alguma coisa me faça parar. E se alguma coisa me faz parar eu olho para ela. Eu gosto desse BANG. Eu observo-a e relaciono-a com aquilo que tinha visto.” Nos últimos anos, a maioria dos frequentadores das salas de exposições pode ter tido algumas dificuldades em encontrar aquele “BANG.” O artista “instalador” abandonou o imperativo da autenticidade da obra de arte e transformou-se no ardiloso e indolente manipulador, fabricando o efémero, explorando o ridículo o cinismo e o embuste e, no fim, é ele próprio que deixa de ser autêntico.
Ao exercer esta reprovação e criticismo acerca deste capítulo da arte contemporânea, eu quero declarar, firmemente, que não sou, de maneira alguma, um misoneísta. Contrariamente, folheando a história da arte, eu sempre abracei a inovação e sempre me senti estimulado quando me deparei com as primeiras avant-gardes e testemunhei a chegada das últimas: desde Giotto (1267) e a introdução da perspectiva na pintura, ao maneirismo de Parmigianino (1503) e Pontormo (1494); de Eugène Delacroix (1798) e William Turner (1775) e o romantismo, Claud Monet (1840) e Pierre-Auguste Renoir (1841) e o impressionismo, Pablo Picasso (1881) e George Braque (1882) e o cubismo, até Andy Wharol (1928), Peter Blake (1932) e David Hockney (1937) com a pop art; e, finalmente, do neo-expressionismo de Georg Baselitz (1938), Anselm Kiefer (1945) e Jorg Immendorff (1945) até à street art de Keith Haring (1958) e Banksy (1975).
Escrevo este ensaio, tendo em consideração não só a minha própria avaliação ou análise crítica, mas e sobretudo revelando e relevando, muito seriamente, os fortes ecos vindos de uma grande maioria de pessoas que visita essas exposições e que manifestam o seu desabono e desapreço pelas peças instaladas. Elas reagem contra a inconsistência e qualidade dos trabalhos apresentados, e assinalam a dissimulação e a suspeição sobre as intenções do artista.
De novo, Julian Spalding: “...a arte contemporânea rejubila por ser incompreensível para todos, à excepção de uns poucos membros do grupo, ...e trabalhos que “apelam a um certo auto- elogio em grupo. ...e artistas que produzem “delícias muito raras, fraudes, ornamentos como brilhantes de uma cultura de diversão."
A arte, através dos tempos, sempre foi e será contemporânea e assim, como moderna foi no passado, moderna é hoje e também moderna será amanhã. O Contemporâneo transporta, dentro de si, o Modernismo. Historiadores, curadores e críticos, decidiram implementar uma nova era, um novo tempo na história da arte, mudando a denominação de Modernismo ou Arte Moderna para Arte Contemporânea. Proclamaram, no seu “manifesto”, que esta última é, simplesmente, um conceito, uma ideia, um conjunto de palavras ou imagens, mas, como hoje constatamos, é sustentada, na prática, por amontoados de instalações-bricolage, lixo e pretenso luxo e algumas efemeridades, tais como, happenings, performance, body e earth art. Após tediosas palestras, volumosos livros e longos ensaios, tudo acaba com uma mão cheia de teses, teorias e palavras e a outra cheia de nada, onde a arte não diz presente.
A partir da década de 1960, quando os artistas começaram a utilizar novos media e novas tecnologias, o vídeo, a instalação e os neons, eles nunca proclamaram a morte do modernismo nem questionaram se a arte moderna estava no ponto de se tornar arte contemporânea.
Eles, simplesmente, carregavam novas ideias, novas formas, novas estéticas e nova imagética com o intuito de inovar, criando novas linguagens, como já tinham feito outros artistas anteriormente, desde o início do século XX, dando origem a várias vanguardas, novos manifestos, movimentos e estilos.
Toda esta trapalhada feita de opiniões diferentes e reflectindo uma irrefutável falta de consenso, é indicativo da existência de um grande embuste. Aceitando como adquirido que alguém pudesse estabelecer parâmetros válidos na sua globalidade, mesmo assim, um consenso seria, fortemente, inconsistente e complexo.
Quanto à sua etimologia, contemporâneo tem origem no latim, contemporaneus, composta pelo prefixo cum (com), do substantivo tempus / temporis (tempo) e do sufixo aneus (pertencente, relacionado com), significando algo do nosso tempo, relativo ao tempo em que vivemos. Assim, será legítimo questionar se a obra “Les Demoiselles d’Avignon” de Pablo Picasso, criada em 1907, podia ser considerada arte contemporânea, por quem vivia naquele tempo? Interpretando todas estas reflexões e considerações como aleatórias, alguém poderá concluir que o historiador pretendeu, de uma maneira inflamada e impulsiva, classificar um novo tempo
da criação artística, uma vez que ele assumiu este, arte contemporânea, como sendo muito diferente do anterior, arte moderna. Contudo, e considerando aqui, somente, a pintura, Fauvismo (1905), Die Brucke (1905), Cubismo (1907), Futurismo (1909), Abstracionismo (1910), Der Blaue Reiter (1911), Suprematismo (1913), Dadaismo (1916), De Stijl (1917) e Surrealismo (1924), vanguardas, movimentos e estilos que, emergindo antes da Segunda Guerra Mundial, pouco se diferenciam, numa apreciação da expressão plástica e estética, das vanguardas e movimentos surgidos no Pós Segunda Guerra Mundial, e tendo muitas vezes aqueles influenciado estes: Arte Bruta (1945), Grupo CoBrA (1948), Expressionismo Abstracto (1952), Pop Art (1954), Minimalismo (1962), Nova Figuração (1963), Arte Povera (1965), Hiper-Realismo (1968), Transvanguarda (1979), Neo-Expressionismo (1980) e Street Art (1990). Todos estes movimentos nasceram do trabalho árduo e sério de artistas que, durante os seus encontros e tertúlias ou na solidão dos seus ateliers e estúdios, expressaram inovação e irreverência, criando, durante mais de um século, obras de arte de elevado valor estético, originalidade e unicidade. Essas obras terão, para sempre, um lugar distinto nas páginas da História da Arte. Não terão, certamente, um lugar distinto nessas páginas, as trivialidades e as efemeridades acima referidas. Uma vanguarda, um novo movimento ou novo estilo, considerado estruturado, apoiado e duradouro, surge, normalmente, em ruptura e oposição às doutrinas e preceitos do anterior. A Arte Moderna que teve o seu prelúdio nos últimos anos do século XIX, com o Pós-Impressionismo, apanhou, assumidamente, nos primeiros anos do século XX, o comboio das avant-gardes, atravessou a primeira e a segunda guerra mundial e, depois delas, continuou a rolar até hoje, sobre os mesmos carris, embora, com outra velocidade, novos compartimentos e parando em novas estações. O que aconteceu, então? Foi acontecendo a História. Aconteceram duas devastadoras guerras mundiais, uma transição da era industrial para a era tecnológica, as manifestações da contracultura, profundas transformações políticas, sociais e culturais, o desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e da comunicação, o emergir de uma indústria cultural de massas e a globalização, entre outras. Estas mudanças influenciaram ou foram influenciadas por diferentes artistas que, durante todos esses anos, utilizaram aquele comboio, uns entrando, outros saindo nas diversas estações, mostrando ao público a arte que foram criando durante essa dinâmica viagem que originou uma gigantesca ovulação de vanguardas, manifestos, movimentos e estilos. Arte ia acontecendo.
A arte moderna não pariu a arte contemporânea e também não morreu como o salmão após a desova. Ela continua hoje moderna, ora desovando conceitos, escritos e amontoados de efémeras construções e instalações-bricolage, lixo e luxo kitsh, ora apresentando formas inovadoras de pintura, escultura e outras linguagens plásticas.

excerto do ensaio “É necessário autopsiar a bexiga da arte moribunda “ 2018 Pintomeira

publicado em: https://www.academia.edu/37198943/Autopsying the moribund art bladder